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09
Nov16

E Trump ganhou

por Flávio Gonçalves

Já liguei a televisão... nunca acreditei que Trump ganhasse as eleições... acho que só vou começar as entrevistas com os intelectuais de esquerda amanhã, já sei que Slavoj Zizek como socialista politicamente incorrecto apoiou Trump, o mesmo sucedeu com vários intelectuais da esquerda mais revolucionária (Michel Chussodovsky, John Pilger, Pepe Escobar, James Petras, o já mencionado Zizek, aliás, assim de repente, acho que só o Noam Chomsky apoiou a Clinton como "mal menor", a restante intelectualidade do socialismo mais ou menos democrático preferiu Trump) por pura aversão à Clinton. São tempos interessantes estes.

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Mantenho os paradigmas de construção de uma Filosofia do Impuro, a única que permite a construção de grelhas interpretativas do tempo em que vivemos. Porque a Pureza era mais uma utopia, embora se assemelhasse a um formato muito sólido para o entendimento da sociedade e sobretudo do Homem, criando grandes estruturas e interpretações, acabou por condenar-se sem a necessidade de submeter-se a tribunal mais amplo do que o do próprio tempo, devastador de todas as arestas e sabores. Assim, o radical do impuro situa-se no que nos rodeia e governa: o próprio âmbito cultural, antropológico é essa mancha irreparável. Tanto há impureza no avanço dos fundamentalismos, como no triunfo de uma Igreja ao serviço da política numa das principais cidades do Brasil, como na violência disseminada pelos órgãos de comunicação ou pela patética estrutura organizativa da educação, com os professores a trabalharem estatísticas esquecidos do material humano que deviam levar à condição elevada de Mulheres e Homens, não porque seja essa a vontade dos docentes, mas porque a estrutura subjetiva do capitalismo contemporâneo é precisamente a do sujeito nómada, sem identidade fixa, frágil e manipulável; é necessário criar o zombie triunfante que sirva os poderosos do sistema e seja o sistema sem poder, ambulatório. A própria máquina que desencadeia o dinamismo, é impura. E não merece futuro a longo prazo. E sabe-o, pelo que procura ser cada vez mais dinâmica para fechar as contas consigo mesma, com um saldo positivo. A história já nos mostrou que esse é um caminho falhado: o de procurar desembaraçar-se do obstáculo, mantendo o dinamismo. Falhado, porque conduz à perda do dinamismo ao mesmo tempo que perde o obstáculo. O triunfo aparente dos conspurcados – aqueles que sob os desígnios do impuro são o seu lado mais fétido e poluente – está nos exemplos mais gritantes (do Ministro Relvas que abriu a porta às falsas habilitações literárias no poder, escancarando-a e criando uma "escola" de falta de caráter à solta, aos religiosos que manipulam a religião e tomam o poder subjugando os seus acólitos, aos políticos que não merecem a nobreza das funções e que mesmo em Democracia vão escavando terreno para o alicerce das ditaduras).

Não há muito para concluir, em matéria de pensamento. Há sobretudo muito por pensar.

Alexandre Honrado

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31
Out16

Eu, o coerente?

por Flávio Gonçalves

No rescaldo de uma troca de missivas com um académico acerca do meu passado político fui dar uma vista de olhos a algumas entrevistas que dei há meia dúzia de anos e textos antigos, realmente como volta e meia afirma o meu actual camarada Filipe Barroso, "os valores base não mudam": ao longo do meu percurso sempre defendi o federalismo europeu, primeiro nas entrelinhas de alguns textos e, desde 2008, de modo explícito e aberto. Nem eu próprio me tinha apercebido dessa coerência (como sabem, por norma critico a "coerência", já a denunciei em vários textos, uma pessoa "coerente", a meu ver, só demonstra uma incapacidade de aprender, mudar e aperfeiçoar os seus ideais). Quem diria, afinal tenho sido coerente e consistente e muito o devo ao exemplo do meu falecido camarada e conterrâneo José Medeiros Ferreira.

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QuadroDeHonra.jpg

A revista “LOUD!” decidiu dedicar umas dezenas de edições aos discos mais emblemáticos do submundo musical português, do industrial ao punk passando pelo hardcore e pelas várias gradações - das mais suaves às mais extremas - do heavy metal passando até a por um cheirinho muito ligeiro de Oi!, pouco ficou de fora deste volume compilado e dado à estampa em Maio deste ano, eis “Quadro de Honra” (368pp.; 16,90€; Saída de Emergência, 2016).

Admito que foi um tanto ou quanto complicado manter-me neutro quanto aos conteúdos deste livro, não só o volume inclui entrevistas com muitos dos ídolos da minha adolescência e juventude mas também com muitos rostos conhecidos cujo rastro o tempo me fez perder e até alguns amigos que já partiram deste mundo (caso de João Ribas, dos Censurados), o cérebro invadiu-se com toda uma série de locais que já não existem, do Centro Comercial Portugália até ao V Imperium, do Boca do Inferno ao Limbo, do Meia Nota ao Jürgens, num Bairro Alto alternativo, rebelde e deliciosamente barulhento que já só existe na memória daqueles que, como eu, lá andaram a saltar, a pogar e a cantar os refrões.

Mais, fez-me recordar todo um frenesim de trocas de fanzines, folhas volante (a imortal “Thrash Publishing” do Mário Lino) e cassetes de fita, selos dos CTT cobertos com cola ou envernizados para serem eternamente reutilizados, os catálogos da Carbono e da Guardians Of Metal que nos chegavam (parecia) do outro lado do mundo quando ainda residia na minha cidade natal da Horta (Faial, Açores), a leitura quase devocional das revistas “Roadie Crew” e “Rock Brigade”, o nascimento e morte da “Riff” (por uma questão geracional, o meu irmão mais novo lia a “LOUD!”) e a alemã “Rock Hard”, que se utilizava essencialmente para recortar fotos das bandas favoritas com as quais se cobriam os cadernos e capas da escola, os discos comprados a meias com colegas de liceu, as encomendas conjuntas para poupar nos portes e os anúncios dos X-Acto no “Blitz”, todo um passado que a geração da Internet, do iTunes e do Facebook dificilmente entenderá ou julgará nunca ter existido.

O livro conta com uma introdução a cargo de José Luís Peixoto, dois textos de Fernando Ribeiro, recordando as gravações e o rescaldo de “Wolfheart” e “Irreligious”, que catapultaram os Moonspell para uma carreira no estrangeiro que ainda perdura, e 36 entrevistas efectuadas por Ricardo S. Amorim, José Miguel Rodrigues, Nelson Santos, José Carlos Santos, Nuno Costa, Ricardo Agostinho e José Almeida Ribeiro, tudo em bom português (ou seja, Sem Acordo Ortográfico, uma deliciosa anomalia por parte da Saída de Emergência). Deste underground notei apenas a ausência de duas sonoridades: o rockabilly (eu incluiria Capitão Fantasma e Lucky Duckies) e o neo-folk (Sangre Cavallum? Karnnos?), terão ficado para a promessa vaga de um segundo volume?

Satisfez-me encontrar os açorianos Morbid Death (teria apostado que se tinham esquecido deles, mas tal não sucedeu) e José Cid com o seu rock progressivo em “10.000 Anos Depois Entre Vênus e Marte”, a presença do hardcore – principalmente o vegetariano - parece-me um tanto ou quanto desproporcional, mas gostei de ouvir em discurso directo a realidade dos poucos submundos que não testemunhei em primeira mão. No Oi!, temos os sempre eternos e incontornáveis Mata-Ratos, o punk está entregue aos Censurados e aos Peste & Sida e o prato principal é heavy metal, muito heavy metal, death, grindcore, black, industrial, épico, neste campo o underground nacional dá cartas.

Para alguém que de algum modo viveu o “boom” do underground português na segunda década de 90 e primórdios do século XXI, este livro irá fazer com que vão à cave ou ao sótão sacudir o pó de discos e CDs aos quais há muito não voltavam – eu próprio, nos dias que demorei a digerir toda a nostalgia que esta monumental obra me causou, acabei por ouvir todos os álbuns de Heavenwood, a começar por “Swallow”, uma vez que a compra deste me fez recordar a minha primeira ida a Ponta Delgada (São Miguel), conhecer pessoalmente Mário Lino, uma ida à ilha de Santa Maria onde foi a banda sonora de uma excursão do Grupo de Jovens do Capelo e ainda a ida a um concerto de Morbid Death. Estou certo que todos nós, entre os 30 e os 50 anos a avaliar pelo meu regresso ao underground aquando da vinda de Obituary ao agora incontornável RCA Club, iremos recordar vários momentos à medida que percorremos as quase quarenta entrevistas e álbuns reunidos neste volume.

Para todos aqueles que não puderam testemunhar em primeira mão este submundo vivo que foi o eclodir das sonoridades mais extremas em Portugal a partir de 1993, têm aqui um autêntico documentário escrito para o que vivemos (sim, até eu tive uma banda de garagem, cabelos a meio das costas, muita roupa negra e pulseiras com espigões, por sorte a típica humidade açoriana parece ter varrido todos os indícios desse período) e estou certo de que hoje, algures, pulsa ainda um underground que vale a pena conhecer.

Para os nostálgicos, para os estudiosos e para os curiosos, neste volume encontram entrevistas com as bandas Mão Morta, Thormenthor, Ramp, Bizarra Locomotiva, Twentyinchburial, Grog, Desire, Sacred Sin, Evisceration, Heavenwood, Decayed, Genocide, Sirius, Shrine, Inhuman, X-Acto, Tarantula, Mata-Ratos, Disaffected, Blacksunrise, Holocausto Canibal, Censurados, Men Eater, Exiled, Gangrena, José Cid, In Solitude, Peste & Sida, Morbid Death, In Tha Umbra, The Temple, If Lucy Fell, New Winds, W.C. Noise, Corpus Christii e Process Of Guilt. Dica: quase todas elas anunciam o relançamento dos seus álbuns mais populares.

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João Branco Martins é consultor em antecipação política e económica, presidente da Associação para o Posicionamento Estratégico e Financeiro (APEFI), autor de três obras sobre economia – sendo que a mais recente (“A Economia lá de Casa, A melhor estratégia para fazer crescer o seu dinheiro e deixar a crise para trás”, Verbo, 2014) foi já alvo de duas edições - ex-radialista do Rádio Clube de Sintra e presença ocasional nas televisões portuguesas, pronunciou-se nas redes sociais acerca do tratamento que a comunicação social e a comunidade internacional estão a dar à Rússia.

Em dois textos publicados na sua página oficial no Facebook no passado dia 28 de Outubro, Branco Martins alertava o seguinte: “agora todos os ataques na Síria são culpa dos russos. De repente mostram-se crianças estropiadas e ensanguentadas no telejornal, apenas para dizer que foram vítimas dos bombardeamentos russos”, enfatizando que “estamos a ser condicionados para odiar os russos”.

Referindo-se ao desenlace da mais recente votação no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), afirmava: “a Rússia é posta fora do Conselho (…) Quem mantém o seu lugar e liderança? A Arábia Saudita”, nação conhecida pelas contínuas violações dos Direitos Humanos, país que ainda possui a pena de morte e que, em 2015, executou 153 pessoas e, até Julho deste ano, já tinha executado 100 cidadãos – de acordo com os dados da Amnistia Internacional.

Encerrando o seu desabafo acerca da máquina de propaganda actualmente encetada contra a Federação Russa, João Branco Martins alertava, preocupado, que “dentro de uns anos todos nós, eu incluído, estaremos a odiar os russos. Estaremos dispostos a arriscar a nossa vida e a dos nossos filhos contra a Rússia. E digo eu incluído porque ninguém estará imune à lavagem cerebral que nos vão fazer.”

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25
Out16

António Trump?

por Flávio Gonçalves

Um bom barómetro para ver como o PSD está a reagir ao posicionamento do governo português quanto à Rússia: hoje no "Público" Paulo Rangel compara António Costa a Donald Trump... um mínimo de soberania governamental perante as decisões impostas por Merkel, Bruxelas e a OTAN tendo em mente os superiores interesses de Portugal faz confusão à direita oficial cá do burgo, que sempre se apodou de "patriota" enquanto abraçava o mais selvático internacionalismo capitalista. Ironias.

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14
Out16

Cleptocracia em acção

por Flávio Gonçalves

Cleptocracia em acção.JPG

Uma vez que em Portugal quase todas as leis estão pensadas para o incumprimento em vez de para o cumprimento e prevenção tendo em vista a cobrança de uma multa (numa clara cleptocracia que há anos denuncio em blogues, nas redes sociais e nas páginas dos jornais e revistas onde escrevo), estimo que estarei prestes a perder a carta uma vez que desde início do ano que aos fins-de-semana aproveito para levar o carro para o trabalho, uma vez que não se pagam parquímetros, e só agora, mais de meio ano depois, recebi a primeira multa de radar por circular numa zona de 50/kh a 70/kh.

Uma vez que o "crime" foi cometido já na primeira semana de Março (quando comecei a levar o carro para o trabalho) e o faço todas as semanas, entrando no Túnel do Marquês vindo do Viaduto Duarte Pacheco a 70/kh (a norma para os túneis), prevejo que devo receber ainda umas boas multas seguidas por um qualquer mandato, uma vez que as autoridades só passados sete meses se dignaram a dar sinal de vida e o túnel, tanto agora como há sete meses, se mantém sem qualquer indicação de limite de velocidade - aparentemente os avisos fundiram todos, ou estão propositadamente desligados - e toda a sinalização na zona não inclui qualquer limite (aliás, o último limite sinalizado são 80/kh na descida para o Viaduto Duarte Pacheco).

Recordo que a velocidade nos túneis normalmente é de 70/kh, assim é na zona onde resido (Portas de Benfica/Amadora) e em redor de toda a capital, já é em si excepcional a Polícia Municipal ter radares de velocidade, mais excepcional ainda que aquele túnel em particular - na boca de uma autoestrada onde a última sinalização indica como limite 80/kh - seja considerado "dentro da localidade" com o respectivo limite de 50/kh quando túneis semelhantes têm como limite 70/kh, mas a excepcionalidade absoluta e o ridículo desta situação é o facto da sinalização estar desligada há pelo menos 10 meses (presumo até que há mais tempo, pois só há 10 meses trabalho ali na zona), e a demora da penalização, pois se eu após ter sido "apanhado" recebesse a multa alguns dias ou horas depois (como já me sucedeu com a PSP) estaria alertado para a singularidade daquele túnel, agora chegando a multa sete meses após o ocorrido e circulando eu ali uma ou duas vezes por semana à mesma velocidade - a norma para os restantes túneis de entrada em Lisboa - é normal que receba uma quantidade avultada de multas às quais se seguirá um processo em tribunal e uma hipotética condenação a trabalho comunitário ou tempo de prisão por não as poder pagar. Portugal ainda tem muito que reformar para se salvar!

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08
Out16

Rússia: um ano na Síria!

por Flávio Gonçalves

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Na passada sexta-feira, 30 de Setembro, assinalou-se o primeiro aniversário da entrada da Rússia na guerra civilizacional ainda a decorrer na Síria contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), ao contrário da trôpega intervenção dos Estados Unidos da América – que entraram na guerra à revelia das autoridades sírias e aliados à oposição armada “rebelde moderada”, tendo também o hábito de “por erro” bombardear posições hostis ao EIIL e, também “por erro”, largar abastecimentos de armamento do lado errado das linhas inimigas acabando por abastecer o Estado Islâmico – a Rússia entrou em solo sírio após um pedido de apoio oficial emitido por Bashar Assad ao governo russo e a aprovação dessa mesma intervenção por parte do Conselho da Federação Russa.

De acordo com os dados oficiais apresentados aquando do cessar-fogo patrocinado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, e pelo Secretário de Estado dos EUA, John Kerry (cessar-fogo esse que entrou em vigor a 12 de Setembro mas que nem chegou a durar uma semana, uma vez que os “rebeldes moderados” armados e apoiados pelos EUA acabaram por o quebrar mais de 300 vezes), em mais de 15.000 missões de combate levados a cabo pelas forças russas, “passado um ano, foram abatidos dezenas de milhar de terroristas, foram libertadas centenas de cidades e povoados, cercaram-se os militantes [do EIIL] em Aleppo e o território, as finanças e o poderio do Daesh diminuem a passo rápido”, estando prevista uma coordenação estratégica entre as forças dos Estados Unidos e da Federação da Rússia aliada à entrada da Turquia no conflito (desta vez, no lado certo) seria de pensar que os dias do Estado Islâmico já estavam contados… infelizmente nem por isso, além deste pormenor dos rebeldes “moderados” terem aproveitado a mão livre para atacar posições sírias em vez de posições do EIIL e o facto de os “terroristas” a quem a Turquia não tem dado trégua serem as Unidades de Protecção Popular (nas quais combateu o EIIL até à morte o socialista português Mário Nunes) e restantes milícias curdas e não o Estado Islâmico.

O combate civilizacional contra o Estado Islâmico ainda está longe de terminar, a intervenção russa foi determinante para reduzir o poderio e a influência deste tanto na Síria como no Iraque e, teoricamente, para alterar a aliança e a estratégia de Recep Erdogan, afastando a Turquia do papel de fornecedor de armas e comprador de petróleo do Estado Islâmico para o de seu declarado opositor (até ver, mais nas palavras do que nos actos). Caso a Rússia se tivesse omitido, como na Líbia, teríamos hoje outro Estado completamente implodido e entregue aos radicais islâmicos. A ver vamos como estará a região, e o mundo, daqui por mais 12 meses, até lá devíamos estar todos gratos à Rússia (e ao Iraque e ao Irão) por estarem a combater no terreno uma guerra civilizacional que, queiramos ou não, diz respeito a todos nós.

Foto: Aviões russos no Aeródromo de Hmeymim, Síria. © Ministério da Defesa da Rússia

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06
Out16

A proclamação do efeito perverso

por entratenamente

Persigo, há tempos, as coordenadas de uma filosofia do impuro, assente nos vértices permitidos pelo pensamento de pensadores impuros, isto é, não alinhados, os espontâneos ou inadvertidos, de ideias impuras que ressaltam como explicação dos tempos (em) que vivemos e das próprias e vastas impurezas do que o quotidiano produz, como capacidade. São raros, pouco conhecidos, lentamente emergentes, esses produtores de ideias.

Por razões de conveniência e especialização, os problemas filosóficos são agrupados em subáreas temáticas: a metafísica, a epistemologia, a lógica, a ética, a estética e a filosofia política são as mais tradicionais. Algumas ideias são forjadas como princípios de referência - acabando por mostrar-se verdadeiras fraudes de propaganda. Mas o pensamento do filósofo cava mais fundo: interpreta as ideias produzidas para as devolver de uma forma que lhe pareça funcional. (Mesmo quando teoriza o abstrato). Assim, os filósofos devolvem-nos aquilo que pensamos, depois de pensarem por nós aquilo que pensámos e o que os induzimos a pensar. Uns dos tons mais ofuscantes das sociedades contemporâneas é a ilusão de que cada cidadão pensa pela sua própria cabeça.

A verdade é que nos falta método e metodologias operatórias para uma estrutura do pensamento e o que pensamos não passa de uma reação empírica e emocional ou, normalmente, a emissão de um apressado juízo de valor. Somos por isso tentados à proclamação do efeito perverso: dizemos mal daquilo que nos rodeia, da forma estrutural das políticas que nos impõem regras, somos reagentes à mudança e cultivamos quietudes, pois cedo nos tornamos habitantes dos nossos hábitos e pouco ou nada reformistas ( de quem somos ao que somos, sós e em grupo).

Não é surpreendente o conjunto infinito de erros que produzimos em aspectos essenciais da dinâmica social. Em extremo, transformamos liberdade em tirania, apenas por não sabermos gerir a liberdade. Agrego Goethe, o poeta, à categoria dos filósofos do impuro, quando cria Mefistófeles, aquele que anseia eternamente pelo mal, mas que, para sempre, produz o bem. É que a contradição é um dos mais evidentes zénites da filosofia do impuro. O lado mais evidente dos padrões contemporâneos. A plataforma onde nasce, provavelmente, a mudança ideológica que nos aguarda.

Alexandre Honrado

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29
Set16

Classe média?

por Flávio Gonçalves

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Actualmente “classe média” deve ser o termo que mais ouvimos da boca dos nossos políticos, em Portugal somos todos (ou quase) de classe média, desde a senhora que limpa os sanitários públicos até ao Senhor Doutor Engenheiro Arquitecto que tem cozinheira, motorista, mordomo e jardineiro, não há português que não julgue ser dessa mítica e gamzubina classe “média”. Portugal deve ter a única classe média a nível mundial que recebe um ordenado tão baixo, mas tão baixo, que a obriga a trazer a comida a comida às costas de casa e a ingeri-la fria em algum vão de escada ou jardim, pois muitas empresas nem uma salita ou micro-ondas têm para utilização dos seus funcionários médio-classistas. Massa e arroz com atum ou salsicha (ou o corte mais barato de porco ou frango que se consiga comprar) é o que move quem trabalha nesta República das Bananas sem nunca se insurgir, tudo permitindo, abdicando de direito atrás de direito, olvidando há muito que os direitos dos trabalhadores foram conquistados, não foram nunca, em período histórico algum, entregues de bandeja pelo patronato ou pelos governantes dependentes dos patrocínios dos banqueiros e do grande patronato para pagar as suas campanhas ou para lhe garantirem o pão quando findo o mandato.

Não resisto a partilhar convosco alguns dados extremamente interessantes compilados por José Soeiro na sua coluna no “Expresso” da passada sexta-feira (16 de Setembro): “Em Portugal, o valor patrimonial médio é de 69 mil euros, ou seja, quase dez vezes menos do que o valor a partir do qual se fará incidir o novo imposto. E 89% dos agregados familiares (dados da Autoridade Tributária disponíveis na Pordata) tem um rendimento anual até 27 mil euros. É pouco, sim – mas é aqui que está a tal ‘classe média’.” E, digo eu, a nossa “classe média” não tem mais de 50.000 euros no banco, nem na conta poupança nem na conta à ordem. Em Portugal só não há ricos nem pobres, existem somente mil tons de 'classe média', há a “média-média”, a “média-baixa” (que ganha o ordenado mínimo) e a “média-alta”, seja por cegueira ideológica (não há pobres nem classes em Portugal, é uma “conquista de Abril”), por vergonha ou pura e simplesmente para fugir aos impostos: somos todos, não o sendo de facto, “classe média”.

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