Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Envelhecemos desde a hora em que nascemos (nós fizemo-lo a par, o nascer e o envelhecer, quase como gémeos). O próprio ato de nascer é brutal e violento, deixa marcas que nos envelhecem. A primeira golfada de ar (poluído, inevitavelmente), a primeira explosão de luz, o som insuportável, as temperaturas absurdas, os cheiros nauseantes, o vazio, em suma: uma nudez para todos os sentidos. Detenho-me. É que, curiosamente, estou a escrever sobre o primeiro minuto de vida. E, ao mesmo tempo, a pensar na morte. Escrevi há anos, era jovem, que a morte é absurda e sem mensagens. Depois disso, já a vi tantas vezes que me agarro à vida como um desses seres minúsculos que habitam planetas enormes. Há horas em que a poesia se esvai. Há horas assim. Quando os meus queridos mortos não me olham, mas estão ali a fitarem-me do nada. As metáforas não são só para a literatura. São para a vida. A vida aproxima-se mais da poesia do que a história. Porque a história tem pontos finais irreparáveis. Porque a história mostra sempre como os povos envelhecem e lutam em desespero contra o seu inimigo final. Gostava de escrever pétalas em chama na tua campa, mas há um gelo frio no rosto do silêncio.

Alexandre Honrado

Autoria e outros dados (tags, etc)