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06
Mai16

A PEQUENA PEÇA

por entratenamente

Uma pequena peça de madeira, curva. Atiramo-la com instintos assassinos. Aparentemente, segue um rumo definido. Parece ir a direito, muito a direito, com um bem comportado instinto hostil. Falha o alvo. Ou o alvo não se deixa enganar. A sorte de convivermos na mesma massa, na pasta comum da aspereza social aguça, em certos momentos, o instinto de defesa. Somos lutadores na lama. Nós, lançando a pequena peça e lá em cima uma figura alada, alvo da nossa cobiça, a escapar-se-nos com mestria. O arremesso levava força e ira. A nossa raiva é o nosso pessimismo latente. Atirar a peça, a pequena peça de madeira curva, talvez dela advenha uma felicidade, mesmo paradoxal. Eu disse há dias que era a filosofia do impuro que me motivava, e ei-la no olhar inquieto para o céu deserto. Na terra, a falta de grelhas hábeis, operatórias, para estudar este vão de tempo e modo em que o mundo se aprisiona. Dentro da filosofia do impuro, cruza o impuro objeto o céu azul e só a trajetória do mundo é inquietante. Uma equipa internacional de cientistas analisou um buraco negro que tem 660 milhões de vezes a massa do Sol e uma nuvem de gás que o circunda a 1,7 milhões de quilómetros por hora. Tal como no mundo do consumo, é a dinâmica da novidade que nos move. A distância entre nós, a pequena peça arremessada, o alvo em movimento, e o buraco negro desmesurado, é o somatório de muitos pequenos declínios. É formidável como adaptamos os pequenos declínios ao desejo humano. Atiramos a pequena peça curva. Ela desprende-se da mão, é o nosso pulso a voar, vai muito alto e começa a retornar. É melhor fugir. Cumprida a rota ela estará em minutos em cima de nós. Forma impura da nossa ambição impura. No céu não está ninguém. O alvo desapareceu. O buraco negro sem cor.

 

Alexandre Honrado

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