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06
Out16

A proclamação do efeito perverso

por entratenamente

Persigo, há tempos, as coordenadas de uma filosofia do impuro, assente nos vértices permitidos pelo pensamento de pensadores impuros, isto é, não alinhados, os espontâneos ou inadvertidos, de ideias impuras que ressaltam como explicação dos tempos (em) que vivemos e das próprias e vastas impurezas do que o quotidiano produz, como capacidade. São raros, pouco conhecidos, lentamente emergentes, esses produtores de ideias.

Por razões de conveniência e especialização, os problemas filosóficos são agrupados em subáreas temáticas: a metafísica, a epistemologia, a lógica, a ética, a estética e a filosofia política são as mais tradicionais. Algumas ideias são forjadas como princípios de referência - acabando por mostrar-se verdadeiras fraudes de propaganda. Mas o pensamento do filósofo cava mais fundo: interpreta as ideias produzidas para as devolver de uma forma que lhe pareça funcional. (Mesmo quando teoriza o abstrato). Assim, os filósofos devolvem-nos aquilo que pensamos, depois de pensarem por nós aquilo que pensámos e o que os induzimos a pensar. Uns dos tons mais ofuscantes das sociedades contemporâneas é a ilusão de que cada cidadão pensa pela sua própria cabeça.

A verdade é que nos falta método e metodologias operatórias para uma estrutura do pensamento e o que pensamos não passa de uma reação empírica e emocional ou, normalmente, a emissão de um apressado juízo de valor. Somos por isso tentados à proclamação do efeito perverso: dizemos mal daquilo que nos rodeia, da forma estrutural das políticas que nos impõem regras, somos reagentes à mudança e cultivamos quietudes, pois cedo nos tornamos habitantes dos nossos hábitos e pouco ou nada reformistas ( de quem somos ao que somos, sós e em grupo).

Não é surpreendente o conjunto infinito de erros que produzimos em aspectos essenciais da dinâmica social. Em extremo, transformamos liberdade em tirania, apenas por não sabermos gerir a liberdade. Agrego Goethe, o poeta, à categoria dos filósofos do impuro, quando cria Mefistófeles, aquele que anseia eternamente pelo mal, mas que, para sempre, produz o bem. É que a contradição é um dos mais evidentes zénites da filosofia do impuro. O lado mais evidente dos padrões contemporâneos. A plataforma onde nasce, provavelmente, a mudança ideológica que nos aguarda.

Alexandre Honrado

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