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25
Fev16

MEMÓRIA

por entratenamente

A memória é um sítio singular onde guardamos sedimentos. Se nos lembrássemos com exatidão de todos os momentos da nossa vida, não teríamos tempo suficiente para a evocação e, no mínimo, acabaríamos num dos muitos becos da loucura. As minhas mais antigas recordações são traumatizantes. Um telefone branco que quando tocava sobressaltava alguns dos meus familiares é bem capaz de ser uma dessas recordações. Hoje, com alguma honestidade, acho improvável que o telefone fosse branco, já que a tecnologia da minha infância era como o país da minha infância, um local de memórias aprisionadas e com muito pouca claridade. Seria preto o aparelho – e eu a imaginá-lo branco, como o luto usado por certos povos. Diz a canção que as memórias são como um rio. Algumas das minhas são o leito desse rio, com pedras reconhecíveis e um segredo seco no percurso.

 

Alexandre Honrado

 

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