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13
Mai16

BARATA EM CAMA DE HUMANOS

por entratenamente

Muitas foram as baratas que, por acordarem na cama de um homem ou de uma mulher, se sentiram humanas. As baratas, ou os grandes insectos, são assim, mesmo que pouco antes tenham o espírito de um vendedor ambulante e usem sobre as mesas de cabeceira molduras com recortes de revistas com manequins de bom aspecto, a fazerem de fotos. As baratas por vezes nem são manifestas. São discretas como uma pulga em cós. Todavia, a sua carapaça castanha, reluzente, poderosa, dá-lhe a ousadia de aparecer à luz do dia. Nunca nos incomodam as baratas de pé de cama, de vão de escada, de fundo de armário, de recanto de loja, a menos que a luz incida. Nesses casos em que a luz expõe as baratas, há dois caminhos. Ou são baratas muito pequenas, dessas que não desdenhamos pisar com a biqueira, ou são tão grandes que estremecemos e hesitamos e na falta da vassoura pródiga permitimos que nos escapem. As baratas mais poderosas e temíveis, serão afinal as que acordam na nossa cama, finda uma metamorfose, e são alguém ou nós mesmos. Essas baratas não são literárias, nem do século passado, nem escrevem em alemão, embora seja uma boa língua de baratas. São um corpanzil com tons agudos e melodiosos. São baratas conquistadoras. São o transformismo da época. São o noticiário daquele canal de TV, a capa do jornal que tem um nome parecido. E somos nós a permitir tudo isso. Muitas foram já as baratas que acordaram na cama de uma mulher ou de um homem e se sentiram humanas. Logo a seguir, sentiram-se baratas. E pouco depois insectos sem nome. Essas ocuparam as camas por inteiro. E foram ficando e nós a vê-las, tremelicando.

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