Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



19
Fev16

Carlos, I am your father!

por Lara Silva

 

Que Portugal está num lugar irrelevante na pirâmide europeia, todos nós já sabemos. Os compromissos financeiros, para com as entidades financeiras da União Europeia, ultrapassam-nos e amarram-nos, todos os dias, cada vez mais. A ajuda monetária, pela terceira vez, levou-nos a um compromisso - e a um rol de justificações sobre com que linhas nos cosemos -, sem fim e inabalável. Um presente envenenado da Troika.

 

Uma força que nos ultrapassa - e vai além de todos os limites do razoável -, um eixo de luz maléfico, que nos puxa para as trevas e para o abismo, para o planeta dos Condescendentes. "Tadinhos dos portugueses, vamos tomar muito bem de vocês e em troca deixam de pensar, é só obedecer e dar mais umas moedas de juro". Poderia Darth Vader ter sido baptizado aí, ganhando fôlego para encetar a missão de matar e acabar com a réstia de bem no espaço? O pedido de ajuda à Europa, embora pareça a melhor solução possível a curto prazo, tem um preço bastante elevado. A factura custa a todos, principalmente, a quem menos tem e acaba por sair mais lesado dos acordos feitos entre as altas patentes burocráticas. 

 

Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, parece estar num beco sem saída. Viu o seu mandato renovado com a eleição (perdida) de Passos Coelho, em Outubro, mas claramente tem os dias contados. Os buracos nas instituiçoes bancárias portuguesas, por mais que se tente chegar a bom porto e tapá-los, têm sido preenchido com o dinheiro dos contribuintes. O actual governo não está satisfeito com o seu trabalho, a ala da direita já veio qualificar essa insatisfação de "ataque" e, nestes termos, Costa mantém-se de peito feito e costas largas, não querendo abandonar o pouco. Só que, verdade seja dita, provavelmente já está na hora.

 

Depois de divulgadas as negociatas do império de Ricardo Salgado, veio o desfalque no Banif. Não esqueçamos o BPN, em 2008. Estão relembrados? E com isto já passaram oito anos de "flip flops" de largos milhões de euros que se sumiram, como uma nuvem. Provavelmente para uns quantos offshores nas ilhas virgens, geridos à distância por ilustres figuras da direita que, com o conluio do (ainda) actual presidente, Cavaco Silva, encheram os seus bolsos. Agora, o buraco de 4 mil milhões do Banif - uma prenda adiantada de Natal do ex-líder governamental -  veio colocar em cheque a posição de Costa. 

 

Supervisor das instituições de crédito e das sociedades financeiras portuguesas desde 2010, Carlos Costa não parece ter problemas de consciência ou remorsos em relação ao "desaparecimento" de milhares de milhões de euros. É público que os nossos ex-governantes de direita tinham conhecimento do estado crítico do Banif desde 2012, mas nada fizeram para que a questão, claramente urgente, fosse resolvida no imediato. E, obviamente, Costa ter-se-á inteirado dessa informação, mais cedo, e passado ao anterior governo. Será possível ele não ter sabido? Muitos saberiam, certamente. E nada fizeram. Deixaram o dossier Banif a acumular pó dentro de uma gaveta, enquanto pensavam nas promessas eleitorais para manter as posições no parlamento. E os contribuintes que se danem. Já pagaram três resgates financeiros - após três visitas de chá das cinco da Troika - vários anos de uma póspera austeridade, já agora podem safar mais um banco, não é? Quem safa 3, pode safar 4, certo? A gente desenrasca. 

 

Não, é uma factura demasiado elevada para os contribuintes. E injusto para muitas pessoas que, sem terem tido qualquer implicação neste processo, perderam as poupanças de uma vida, não bastasse já o agravamento da carga fiscal, desde 2011. Isto porque o boicote ao PEC IV, na altura - por parte do PSD e Passos Coelho, ansiosos para saltar para o poleiro - empurrou Portugal a rastejar perante a Comissão Europeia e os tubarões de Bruxelas - tios Patinhas do século XXI que preferem banhar-se com moedas nas suas piscinas privadas, a deixar que refugiados rompem com as suas fronteiras. Especialmente com o apoio incondicional de Mario Draghi, do Banco Central Europeu. Tal e qual uma força do mal do Império, aka Darth Vader, a apadrinhar um soldado imperial, por ter sido o melhor da formatura: "Carlos, I am your father!"

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)