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29
Set16

Classe média?

por Flávio Gonçalves

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Actualmente “classe média” deve ser o termo que mais ouvimos da boca dos nossos políticos, em Portugal somos todos (ou quase) de classe média, desde a senhora que limpa os sanitários públicos até ao Senhor Doutor Engenheiro Arquitecto que tem cozinheira, motorista, mordomo e jardineiro, não há português que não julgue ser dessa mítica e gamzubina classe “média”. Portugal deve ter a única classe média a nível mundial que recebe um ordenado tão baixo, mas tão baixo, que a obriga a trazer a comida a comida às costas de casa e a ingeri-la fria em algum vão de escada ou jardim, pois muitas empresas nem uma salita ou micro-ondas têm para utilização dos seus funcionários médio-classistas. Massa e arroz com atum ou salsicha (ou o corte mais barato de porco ou frango que se consiga comprar) é o que move quem trabalha nesta República das Bananas sem nunca se insurgir, tudo permitindo, abdicando de direito atrás de direito, olvidando há muito que os direitos dos trabalhadores foram conquistados, não foram nunca, em período histórico algum, entregues de bandeja pelo patronato ou pelos governantes dependentes dos patrocínios dos banqueiros e do grande patronato para pagar as suas campanhas ou para lhe garantirem o pão quando findo o mandato.

Não resisto a partilhar convosco alguns dados extremamente interessantes compilados por José Soeiro na sua coluna no “Expresso” da passada sexta-feira (16 de Setembro): “Em Portugal, o valor patrimonial médio é de 69 mil euros, ou seja, quase dez vezes menos do que o valor a partir do qual se fará incidir o novo imposto. E 89% dos agregados familiares (dados da Autoridade Tributária disponíveis na Pordata) tem um rendimento anual até 27 mil euros. É pouco, sim – mas é aqui que está a tal ‘classe média’.” E, digo eu, a nossa “classe média” não tem mais de 50.000 euros no banco, nem na conta poupança nem na conta à ordem. Em Portugal só não há ricos nem pobres, existem somente mil tons de 'classe média', há a “média-média”, a “média-baixa” (que ganha o ordenado mínimo) e a “média-alta”, seja por cegueira ideológica (não há pobres nem classes em Portugal, é uma “conquista de Abril”), por vergonha ou pura e simplesmente para fugir aos impostos: somos todos, não o sendo de facto, “classe média”.

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