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26
Fev16

CRISTO TEVE DOIS PAIS – E DEPOIS?

por entratenamente

 

CRISTO TEVE DOIS PAIS – E DEPOIS?

 

Abriu-se um precedente grave: um partido político de uma sociedade laica e democrática desafiou valores religiosos para retirar dividendos.

 

Interessou-me muito, sendo eu um dos responsáveis pelo OLR – Observatório para a Liberdade Religiosa, a anunciada campanha de publicidade exterior, alegadamente da responsabilidade política do Bloco de Esquerda, destinada a saudar o final da discriminação na Lei da Adoção.

É um grito inquietante, aquele. Inquietante e sobretudo inquieto. Revela um desconforto de protagonismo que, até ver o cartaz, me parecia impensável.

Em headline, no citado cartaz, afirma-se: Cristo também teve dois pais. E a ilustração que sublinha a frase é um trabalho gráfico colorido, gerado sobre uma imagem tradicional (e de qualidade relativa) de Jesus Cristo, pontuada por um fundo cor de rosa e duas manchas, uma branca e outra verde-ervilha.

À partida, nada de errado no slogan: Cristo teve Deus, que apresentou como pai. Cristo teve José, que o tratou como filho. Então, porquê a inquietação, tanto mais que não é grande novidade (passaram-se 2 mil anos de tantas polémicas)?

Em segunda análise pode parecer um bom caminho para a publicidade: o cartaz é agitador, capta a atenção, desafia os consumidores a gerarem novas ideias.

É feito num momento de exultação (a derrota é silenciosa e costuma permanecer invisível, ao passo que a vitória é clamorosa e exige sempre ser partilhada), o que o justifica...    

A intertextualidade (que é uma espécie de conversa entre textos; uma interação que pode aparecer explicitamente diante do leitor ou estar numa camada subentendida, nos mais diferentes géneros textuais, é explícita neste caso. Para compreender a presença deste mecanismo, é necessário que o consumidor detenha uma experiência do mundo e um nível cultural significativos. Todos nós temos uma (mais ou menos desenvolvida) cultura que é herança do legado judaico-cristão - pelo que tudo se simplifica na hora de entender este cartaz.

Aqui, Cristo tem nuances: cabelo escuro e loiro. Madeixas, diria. E um peitoral vermelho não intenso, com um coração – Cor, o centro da afetividade, o próprio significado simbólico de centro poderoso – encimado por uma pequena cruz – sempre o símbolo do castigo, da penitência, da condenação., da morte e ao mesmo tempo da vida oferecida aos e pelos outros.

Todas as leituras são possíveis, da imagem, da campanha. A minha é que a mesma transforma, por um ato gratuito, uma vitória numa derrota. Não falo em nome da moral nem mesmo da ética, tanto mais que sempre me interessou sempre mais o Cristo histórico – mesmo quando os factos apontam para a sua impossibilidade –, a par com o Cristo místico, o Cristo esotérico, muito mais do que o Cristo religioso. Para que eu possa continuar a ser quem sou, com esses interesses, reclamo a minha Liberdade Religiosa, a qual me permite ser ateu ou crente dentro de um quadro de educação cívica e legal que respeita as opções de cada um. Tenho assistido com assombro às pequenas batalhas cheias de fel entre fações religiosas, que comparam virtudes, verdades, deuses, com uma agressividade que as desqualifica.

Tornar a questão da adopção um tema religioso – e colá-lo apenas a uma corrente religiosa, o cristianismo – parece-me um erro de estratégia.

Tenho muitos amigos homossexuais e muitas amigas lésbicas, como tenho muitos amigos heterossexuais. Desconheço a opção sexual da maior parte dos meus amigos, já agora. Alguns dos vultos intelectuais que mais me marcaram – e marcam – não eram heterossexuais. Também não faziam questão de brandir bandeiras cor de rosa ou verdes da cor das ervilhas, porque a diferença entre os seres humanos, tal como a sua proximidade, não tem em rigor nada a ver com cores ou opções sexuais. Não é o género que nos dignifica. Mas também não nos dignifica este tipo de campanha e sobretudo o modo como a ela reagiram.      O cartaz e os argumentos contra são de uma menoridade confrangedora; discutiu-se o acessório (a religião) e perdeu-se o essencial (a lei de menores, o direito à dignidade, a vida e o ser humano enquanto prioridade).

A moral cristã, em última análise, é que pediu este cartaz, bem sei. Se ela não fosse tão fundamentalista e inadequada, não motivaria o reagente. Mas essa mesma moral é parcelar – e não representa sequer os cristão na totalidade. Todavia, o cristianismo não é para aqui chamado. Nem o judaísmo – onde a presença de Cristo é controversa, negando-se-lhe a dimensão messiânica e até a veracidade –; nem o islamismo, religião monoteísta em que o profeta Cristo é respeitado. Nem qualquer outra estrutura de crença.

O que aqui se chama é a questão, de fundo, da Liberdade. Ela começa onde a do Outro acaba. Ela acaba onde a do Outro começa. Cristo teve dois pais – e depois? Se querem saber, até me motiva uma pontinha de inveja.

 

Alexandre Honrado

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