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11
Abr16

CULTURA ENTRE MARGENS

por entratenamente

Porque as conversas são como as cerejas – quem gosta come até se perder – e o mundo é uma pequena praia onde as ondas vão morrendo (e os sonhos se permitem nascimentos variados e de personalidade intensa), dei comigo a cruzar matérias e amigos, alguns bem recentes, em torno do debate nunca esconso da cultura, se é que podemos debater um pássaro de asas abertas.

A ideia começou mesmo no areal e nesse belo livro de Alain Corbin O Território do Vazio que nos ensina os detalhes da evolução da praia dentro das marés do imaginário ocidental.

À baila, surgiu de repente um pensador antigo – para nós, que pensamos todos os dias e que, por isso, nos armamos em modernos: Lévi-Strauss, que pelos idos de 1969, se deixava ler mais ou menos nestes termos: “a oposição entre natureza e cultura é uma das matrizes principais da vida quotidiana. Esta dicotomia permite-nos impor ordem e estabilidade na nossa visão do mundo, através de processos de classificação e de enquadramento dos objetos e fenómenos que nos rodeiam quer na esfera da “natureza”, quer na esfera da “cultura” ou “civilização”.

Talvez por isso, pensando bem, a desordem e a instabilidade está cada vez mais patente na nossa visão do mundo – e mesmo na nossa criação do mundo, já que essa se faz de um modo quotidiano, cabendo-nos a tarefa da recriação, isto é, de voltar à criação, tarefa que exige grande mobilização de recursos comportamentais e cognitivos.

A conversa foi motivada por um diálogo entre dois continentes – Europa e América (do sul) – e pela paixão comum de perseguir a cultura como objeto de estudo. O que satisfaz esse mesmo objecto é constatar que as culturas são híbridas, tal como nós, os seus agentes. O desafio é encontrar uma forma de tornarmo-nos autocríticos dentro de um sistema (o capitalista globalizado) que não permita à "cultura" excluir a reprodução material e as identidades.

A percepção do mundo natural não tem, em si, nada de natural, dizia o Pierre Bourdieu.

 

Alexandre Honrado

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