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06
Ago16

De 1917 em passo certo

por entratenamente

 

Ao olharmos para trás, cem anos de recuo chegam, verificamos como o recentemente iniciado processo de secularização (que é sempre um processo de longa duração, em que são estabelecidas as normas para se reestruturar o universo religioso e a retirada do controle social do poder eclesiástico), sofreu um rude golpe. Se há cem anos recuássemos outros cem, aí teríamos a ilusão de progredirmos. A História, se não se repete nem se suspende quando os oráculos ditam, tem sempre surpresas. Hoje, tenho a ideia estonteante de que andamos para trás, como se a nossa superstição tivesse regressado, a nossa lacuna de saber voltasse ao nada, como se o homem primitivo que já fomos reclamasse a nossa presença, ao lado dos seus fanatismos, tolices emergentes dos seus inexplicados medos... A extinção das ordens religiosas, que ocorreu no contexto da consolidação do Liberalismo no nosso país, no final da Guerra Civil Portuguesa (1828- 1834), não tinha ainda a consolidação suficiente e a Primeira República ensaiava ainda um cenário de progresso e alfabetização cultural, quando alguns fenómenos se aliaram para o retrocesso. Não se conformando com a sua nova condição, a religião transfigurou-se, com a secularização, em mais uma prática cultural (ficando a par com outros princípios e com as mais diversas formas de fazer da sociedade). Com os espaços públicos esvaziados das referências divinas, a população conquistou o direito de abandonar as convicções e as práticas religiosas que séculos e séculos lhes haviam imposto. Isto é, ganhou mais uma etapa na sua liberdade individual, capacitada de uma nova responsabilidade (já não era obrigado a obedecer a regras que a tolhiam, optava por elas ou pela liberdade de ser religioso ou não, mas sempre fora de um contexto normativo e impositivo). A liberdade de culto é uma das mais preciosas aquisições do ser humano em estado livre. Deve-o ao iluminismo, à evolução da maturidade humana e da sua extraordinária força de ser simultaneamente razão e espírito, não dependendo do segundo para assegurar a primeira.  A religião, por sua vez, privatizou-se com o deslocamento para a “esfera privada das consciências individuais”. cem anos, os três fatores que impediram a progressão foram, sumariamente, a sangrenta e prolongada Guerra Mundial, que no início era vista como a solução da Europa e que, à medida que progredia, se tornou um grande e angustiante castigo universal. A segunda, que se prendeu com a revolução russa, que à distância era apresentada com uma dimensão demoníaca e assustadora. A terceira, com a ideia de que uma revelação do céu se materializara na terra, no lugar de Fátima. A Igreja católica, graças aos acontecimentos de 1917, arriscou uma opção que podia ter sido uma das suas maiores derrotas: trouxe a religião para uma esfera política. Tomou posição sobre a guerra, sobre a Rússia e foi atualizando politicamente, de uma forma ingénua mas muito eficaz, os discursos da “revelação” de Fátima. Com o tempo, as mensagens de Fátima foram ganhando dimensões políticas inesperadas, seguindo e adaptando-se ao curso da História. É claro que a Igreja não o fez de imediato. Estudou vantagens e prejuízos. Rumou depois ao político. Na altura, Salazar e Cerejeira, que tinham sido colegas de escola, aliaram-se para a mesma caminhada. O Presidente do Concelho e o Cardeal Patriarca fizeram um milagre: recuperaram o controlo da Igreja sobre a sociedade e os seus aspectos culturais. Era assim que Salazar queria, politicamente. Era assim que Cerejeira abençoava, cristãmente. De uma pequena terra sem méritos, de três crianças sem credibilidade que a Igreja via com um profundo ceticismo e descrença, fez-se um lugar no mapa do território nacional e da imagética popular. E exportou-se a dádiva. Mas sobretudo, fez-se um travão ao secular, que operava o progresso que o poder não desejava. Curiosamente, Salazar e Cerejeira não irão cedo a Fátima. Esperarão anos, talvez na dúvida de que o tempo lhes touxesse o que a razão desconhecia.

 

 

 

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