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20
Abr16

De bestiais a bestas

por Flávio Gonçalves

Os resultados das mais recentes eleições na Alemanha fizeram disparar os alarmes reguladores da partidocracia, “extrema-direita ficou em terceiro lugar” berram uns, “um neo-nazi eleito” vociferam outros (neste segundo caso referem-se à eleição de um deputado do NPD). A verdade é que o partido revelação destas eleições tem meros três anos e o seu líder, Bernd Lucke, em 2013 quando veio a Lisboa convidado para dar uma conferência numa das universidades portuguesas (lamento, não recordo o nome) ou em 2014 quando “O Observador”, órgão oficial da direita neo-liberal instalada, o entrevistou ainda era tido na conta de respeitado académico e uma figura promissora do novo centro-direita alemão. Passados meros três anos, o AfD que nascera como uma espécie de CDS/PP monteirista lá do burgo berlinense tem a ousadia de angariar votos suficientes para ficar em terceiro lugar: pára tudo, “radicais e extremistas” berram em coro tanto à direita como à esquerda.

 

Este processo de demonização tem-se generalizado na imprensa actual, tanto na nacional como na internacional e, pior ainda, nos discursos oficiais dos políticos dos partidos que rotativamente têm dirigido as nações europeias. Se é certo que não se exige uma licenciatura (que na realidade também hoje em dia para pouco serviria a nível de formação) em Ciência Política a todo aquele que segue uma carreira política, este devia pelo menos aceitar à sua volta conselheiros que o desafiassem e alertassem para certas realidades. Infelizmente assistimos a um coro histérico onde jornalistas e políticos instalados acusam de “extremismo” e “radicalismo” partidos que se limitam a defender ideais que, ainda há uma mera década, eram bandeiras da social-democracia (Syriza, Movimento Cinco Estrelas e Podemos no caso da esquerda) e do conservadorismo-liberal clássico (UKIP, AfD e a nova FN de Marine Le Pen no caso da direita).

O mais curioso é que todos estes partidos, com excepção da FN francesa, quando surgiram foram vistos como jovens promessas da democracia europeia. O problema é que em vez de ganharem calo e maturidade em partidos pequenos e posteriormente virem a integrar-se nos principais partidos (recorde-se em Portugal o caso dos ex-MRPP, a título de exemplo) cometeram a heresia dos seus partidos crescerem e chegarem até a ultrapassar, em votos, os partidos do dito círculo do poder, rumo esse que em 2015 a nova líder da AfD, Frauke Petry, optou por não percorrer – com assinalável sucesso como demonstram os mais recentes resultados.

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