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19
Mar16

DIA DO PAI

por entratenamente

O tampo da minha secretária, tantos anos deitado e obediente, é um pequeno grande reflexo do que sou. Ilha de uma ilha. Os seus habitantes são máquinas de filmar e fotografar, no equilíbrio instável do vai e vem, ao lado de canetas, lápis, cadernos, furadores, computadores, fetiches antigos e modernos, um velho globo que já não traduz as fronteiras do mundo, relatórios de uma Fundação, uma pasta onde pensei ter todos os textos do Observatório Para a Liberdade Religiosa, arquivos das universidades e do centro cultural, coisas dos mestrados e do Doutoramento, cadernos de professor e de aluno, uma foto onde me encerro livre, recordações e fortes nostalgias, o guião de um filme para vender um produto, coisas anexadas da política que observo, outro guião de uma curta-metragem sobre o Kafka, que vai crescendo nos intervalos do tempo que não tenho, recortes de jornais do tempo em que os jornais escreviam-se e escreviam-nos. Muitos poemas. Muitos textos para os jornais, os blogues, a rádio, aquele projeto de tv que mal começa...Muitos livros. Quatro filósofos entre eles e um meu, inacabado. Os últimos que comprei – cinco, ainda ontem – que rodopiam entre a linguística, o ensaio cultural e o policial, que a cultura é um campo grande.

Hoje é Dia do Pai, como se isso fosse alguma coisa. O sentimento regista que o meu não viu o tampo de minha secretaria encher-se de continuidades. Regista ainda a paternidade de quem sou e do que faço. É muito pouco, eu sei. Mas a Primavera está a chegar e por mero acaso poderá acrescentar-me alguma coisa.

 

Alexandre Honrado

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