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07
Abr16

FAMINTO DE POESIA

por entratenamente

 

Como num longo bocejo, a manhã gelatinosa enche-me de dúvidas e tento encontrar nos bolsos, ao pé das chaves, de recibos enervantes, apontamentos ocasionais e migalhas de coisas indefiníveis, qualquer coisa que me reanime. Qualquer coisa inútil, como um poema. É uma mania antiga. Viajo com poemas. Uns estão dentro de mim, como bactérias. Poetas malditos, doces, românticos, daqueles cobertos de luar pálido, poetas arrebatados capazes de reinventar a língua em que escrevem, são sempre meus parceiros de rota, de desdita, de enamoramento. Nas alfândegas dizem-me: excesso de bagagem. E justifico-me com Burns, Dante, Espanca, Elliot, Mallarmé, Natália, Neruda, Pound, Shakespeare, Sophia, Helder... Pago a multa, acato o visto e o olhar castigador do aduaneiro, sigo a viagem como um filho das trevas que demanda a luz. Não percebo nada de poesia, digo aos companheiros de voo, quero só que entre o sublime e o banal se estenda uma passadeira, uma ponte de marfim sem terminal, como um longo bocejo, uma manhã gelatinosa, de onde possa sobressair o que em mim há de mais profano e equilibrado, de mais intangível e profundo, como se no ser que sou o humano se construísse e trabalhasse nas pedra que transporto. Para que nada me separe, um nada que me una? Nós somos poetas de Deus, dizia Dante (que viu infernos). Nós somos poetas do povo, dizia Robert Burns, o Bardo de Ayrshire, que confundia povo com as dores da sua Escócia. Nós somos os poetas do poeta, dizia Mallarmé, que confundia a sua Valvins e a comuna de Vulaines-sur-Seine com o mundo que nenhum poeta pode entender. Nós somos isto, penso eu. Famintos de poesia, mesmo quando não temos a consciência dessa tão profunda fome.

 

Alexandre Honrado

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