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10
Fev16

FRIO NO HADES - 1

por entratenamente

Há profecias científicas, li isto há dias num livro denso. Uma dessas profecias fez-me pensar que um dia alguém iria roubar o calor ao inferno. E cá está a prova.

 

O senhor Tom entrou esbaforido na casa da minha avó, seriam quase horas do almoço. Trazia uma manta e abraçava-a. Os olhos raiados de sangue, a respiração muito acelerada, o medo visível no rosto, que era balofo e sem marcas de grandes ralações anteriores.

Para nós, era o senhor Tom. Eu acreditava que era por ser o nome uma corruptela de Tonto, mas bem vistas as coisas era mesmo uma abreviatura do seu verdadeiro registo batismal.

O homem chamava-se como certo presidente da República decorativo, um que cortava fitas e não sabia o que dizia.

Pensava-se à época que o futuro não nos reservaria outro como ele e afinal os tempos seriam duros e castigadores. É que somos um povo sofrido, desses povos que choram pelos cantos, se arrepelam, dizem mal em surdina ou quando pensam que ninguém os está a ouvir; um povo que amarga as políticas de que é alvo, tolerando-as, que chora durante 26 anos por causa de um acordo ortográfico enquanto não aprende a escrever ou a pensar, que na altura das decisões fica numa sombra, uivando baixinho, sem a coragem de votar ou de pegar em armas (da caneta ao canivete, tudo é arma).

O senhor Tom estava aterrorizado. Amanhecera com uma notícia terrível: o País estava a viver um golpe de Estado nesse dia.

O senhor Tom era o próprio regime. Sempre o admirara e tinha uma boa carreira graças a ele. O seu pai dera-lhe aquele nome e ele chamara Adolfo ao seu próprio filho em homenagem a uma figura histórica que estimava muito. Adolfo era funcionário colonial e tinha por sua vez um filho pequeno, Adolfo António. A vida era perfeita. A ditadura dava de comer a quem a apoiava e deixava nas prisões e nas rotas da emigração quem considerava a mais. Matava nas matas e criava a ilusão da paz nas maiores cidades. Matava de fome mas celebrava banquetes.

O senhor Tom suplicou à minha avó: tem algum cofre ou algum sítio seguro para guardar umas coisas?

Pensámos logo em valores preciosos, eu era muito pequenino mas já pensava. No entanto, o senhor Tom só queria guardar a manta e o que dentro dela abraçava com desvelo: duas fotos. A do ditador, que por acaso até já tinha morrido dois pares de anos antes; e a do Presidente que, tal como ele, era Tom.   A dupla da grande arena circense da nossa pobre história.

A minha avó não tinha cofres, nem vontade de guardar excedentes.

O senhor Tom nunca lhe perdoou. Nem quando aderiu àquele partido de muita fé onde se declarou democrata e cristão e senhor de muita vontade para agradar aos novos tempos. Um partido que o recompensou muito, diga-se em abono das verdades. Nem quando o filho retornou ou o neto o sucedeu no partido e acabou a viver maritalmente com o novo líder que, sendo contra a homossexualidade no programa de ação, era paradoxalmente um esposo dedicado.

Os anos passaram. O senhor Tom morreu, morreu o seu filho, o neto chegou longe na nova política. Os retratos desapareceram, mas creio tê-los visto, à venda, sempre juntos, na Feira da Ladra.

Sonhei com isto, uma história de que fui testemunha ou que se calhar é só ficção. Estou numa fase em que isso não importa.

Lembrei-me, isso sim, do fogo do Inferno, do Hades grego, e de um novo castigo gelado, lugar de penitência terrível onde o fogo se apagou porque alguém roubou o dinheiro com que se pagaria a conta da energia e da lenha para alimentar as labaredas.

Lembrei-me do tempo a passar e de como o vejo.

Há profecias científicas. Tenho de vir aqui falar delas.

 

ALEXANDRE HONRADO

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