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21
Mar16

HOJE NEVOU (PORQUE ERA FUTURO)

por entratenamente

Dizia o Michel Foucault que há doenças puras e impuras. Como se uma delas fosse esta vontade de revisitar pensadores e de procurar gente que pensa, com o meu muito profundo complexo de inferioridade (sim, ai quem me dera, um dia destes, pensar). Há doenças puras e impuras. É puro nevar como é incómodo pensar que o aquecimento global e a nossa nauseante falta de cuidado com a casa comum que é o planeta nos atira para um futuro ingrato (provavelmente muito pior para  alguns descendentes nossos que nem conheceremos). Já que escrevi Foucault escrevo também Innerarity, filósofo que tem andado na minha mochila por estes dias. Não só porque entre alguns pequenos grupos está na moda, porque escreve muito sobre um desses intangíveis que todos devíamos querer: o futuro. Temos de travar relações com o nosso futuro se quisermos realizar operações que vão além do momento presente, diz ele.

Nevou em 28 de Fevereiro de 2007 e eu lembro-me. Com aquela tacanha pequenez dos citadinos das cidades mornas desejei que, no futuro, voltasse a ver neve na minha cidade. Foi hoje. Não sei se caiu, como uma doença pura, sobre as nossas cabeças quentes. A neve devia ser um ensinamento, como toda a grandiosidade que a natureza partilha. Somos, mesmo assim, impuros, até para receber o que os elementos nos comunicam. Quando o povo – e não o rei, apesar do ouro que tinha – fez o aqueduto das Águas Livres de Lisboa, sabia que não ia usufrui-lo, mas que lançava obra para netos e bisnetos. Já fomos altruístas, portanto. Disse-me alguém ao ler o meu último texto aqui publicado que o mesmo não era tão otimista como outros que já escrevi. É o síndroma da dualidade, o puro e o impuro, a neve fresca e a cabeça quente. O futuro é uma especulação sobre o possível – diria Daniel Innerarity. Assim sendo, para ser optimista, digo: voltará a nevar em nós, como uma primavera infantil a divertir-se à nossa custa.

 

ALEXANDRE HONRADO

 

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