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22
Mar16

MANHÃ DE SANGUE

por entratenamente

 

Parece-me que afinal a História é isto. O que fica e o que se descobre e uma porta com as dobradiças rangentes. Ontem a manhã tinha aquele cheiro entre o amargo e o doce que só se permite ao olfato quando o sangue brota. Chegámos a um ponto da ponte onde a travessia não tem mais nada a esconder. Como se o futuro olhasse à volta na antevisão da queda abrupta. Criámos juntos um destino mesquinho. A comoção provem de discordar. Simplesmente do contraditório. Porém já ninguém diz nada. O silêncio fica, como naqueles momentos das batalhas em que sobrou apenas um último combatente que, no meio dos destroços, não sabe se é vitorioso ou mais um derrotado. Já nem as máscaras servem. E os rostos crispam-se. Viemos até aqui empurrados pelo escárnio. O que ritualizámos é agora um mistério que ecoa ao longe. É claro que há frinchas nas janelas e ainda há o sol. Mas também há as sirenes e as lágrimas. E abrigos feitos de jornal onde nada é notícia. Chegámos aqui sozinhos – e nem notámos que perdemos o silêncio da terra a sossegar-nos.

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