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Por imperativos do meu trabalho de investigação, tenho vivido entre pilhas de documentos que me permitem espreitar a História do início do século XX, pondo em lugar próprio os testemunhos e fontes que se prendem com o que realmente procuro, isto é, o ano de 1917. Entre outras constatações, verifico que um certo clima europeu que antecedeu a guerra de 1914-1918 e os primeiros meses do conflito, se repete agora. Sem outras armas, os povos pegavam em pedras com a maior facilidade – e povos que trocam a inteligência pelas pedras enfermam a pena máximo aplicada aos seus dilemas. A opinião pública – os mais jovens eram quase unânimes - apelava à guerra e via nela a salvação coletiva, um sinal de desenvolvimento e riqueza, de vida próspera. Deixando de lado reformas políticas ou mudanças sociais, trocaram rapidamente as pedras por coisas mais mortíferas e eficazes e reduziram as suas vidas a escombros. Com as sinagogas, as igrejas e as mesquitas debaixo de fogo, o ritual da vida privada somava orações clandestinas. Os mortos acumulavam-se, a ruína lavrava. Os generais não viam pessoas nos seus mapas estratégicos – e teimavam na ofensiva. O Ocidente vivia mais um daqueles momentos em que foi muitas vezes pródigo: sitiado e incerto, oscilava entre o ruído dos gritos e das explosões e o angustiante silêncio da morte. Intelectuais pensantes, que nunca conseguem mudar o mundo, matavam ou morriam à medida que as suas ideias se confrontavam. A guerra acabou em cenário de vergonha, como todas as guerras. Disseram alguns que não voltaria a acontecer nada parecido. Fora brutal como nunca se imaginara. E, mau grado os avisos e as lições, em 1939 regressava - ainda mais brutal, muito mais sangrenta e infinitamente mais imbecil. As relações dos seres humanos uns com os outros nunca mais foram as mesmas. A religião foi o último reduto onde alguns guardaram a manutenção dos ritos humanos dos ciclos eternos – como os da morte e da regeneração, isto é, dos invernos ao renascimento e às colheitas. A secularização começou a aprender e a ensinar alternativas – e quando julgávamos que o progresso não era uma utopia, eis que o pior do homem regressa ao primeiro plano da vida. Hoje, nas redes sociais, na opinião publicada, nas mesas dos cafés, ouço o mesmo apelo às armas que condenou os nossos antepassados. Guerra, para acabar com a guerra, reclamam já muitos. O terror tem um novo rosto, o do assassino sem perdão nem glória Mohamed Lahouaiej Bouhlel, nome completo do principal suspeito do atentado levado a cabo, em Nice, esta quinta-feira, 14 de Julho, dia da Liberdade em França. Pelas vozes que se levantam, hoje como há cem anos, fez um bom trabalho. Há quem queira matar para não morrer – a questão permanece sem sintoma de termos evoluído.

 

À força de retirarmos pequenas pedras à natureza, as grandes montanhas acabam por cair-nos em cima.

 

Alexandre Honrado

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