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Vou tomar como exemplo ingénuo o genérico do filme 'Monstros e Companhia' – aquele que afirma que as crianças humanas são cada vez mais difíceis de assustar.

Para os poucos que não sabem, 'Monsters, Inc.' é um filme de animação e comédia norte-americano, de 2001, produzido pela Pixar Animation Studios em parceria com a Walt Disney Pictures, sob realização de Pete Docter. Foi lançado em Portugal em 22 de Março de 2002.

O genérico é um pouco a história da civilização ocidental. Tem ritmo, música, parece cumprir um ritual, constrói-se sobre a estrutura primitiva dos mitos mais assustadores (e tudo isso já era nosso desde as sociedades complexas da pré-História) - e é construído, fundamentalmente, sobre medos. Medo do escuro, do desconhecido, do que está para lá dos muros e das portas fechadas e debaixo da cama, medo das sombras, da dor, do outro, e ainda pelo medo tremendo que nos exige a construção de uma explicação que surja acima de tudo o que tememos para, pelo menos provisoriamente apaziguados, seguirmos em frente, acrescentando ao vazio alguma coisa em que acreditar.

Sei que um blog é uma espécie de caixa hermética onde colocamos alguns alimentos perecíveis, esperando que a fome chegue, abra a arca, abra a caixa, nos consuma – e faça depois algum tipo de contraditório que desejamos (com fervor) inteligente. Por isso, não fico pelo blog, mando o texto a algumas pessoas, partilho-o nas redes sociais, infesto os meus alunos com o bolor que o texto vai ganhando (em especial se o tempo passa por ele, a humidade dos acontecimentos o atinge, a vida o dita).

À nascença propõem-nos cedo uma coisa que dizem chamar-se vida - esse genérico do 'Monstros e Companhia'. Mais ou menos impreparados, começamos logo a viver, isto é: vamos tateando.

A mais derradeira ilusão é quando, já na escola, dão-nos o título de mamíferos (peludos com pele desprotegida, mamões desde cria, coisas genéricas que nos formam). Dizem-nos também, com pompa, que somos racionais – e que isso é um sinal distintivo. E até há quem nos queira convencer de que o genérico do ‘Monstros e Companhia’ é verdadeiro e que sem uma crença nunca sairemos do quarto ou mesmo das sombras.

Não é por isso, todavia, que racionalizamos ou que raciocinamos bem, embora nos caiba por dever, direito, inevitabilidade a tarefa de racionalizar, isto é, de ser racional.

Dizem-nos depois que a evolução levou os nossos antepassados ao homo sapiens, e depois, evoluindo sempre, crânio firme, cérebro a crescer, ao sapiens sapiens, e, aos mais desenvolvidos, ao homo ludens, o homem lúdico que troca o jogo pelos conflitos da existência.

Menos profundos, muitos ficaram-se pela camada superior do que creem ser a felicidade: recriam-se, desdenham da aprendizagem, procuram divertir-se para esquecerem como são miseráveis, perdem.se em discussões mesquinhas, ofendem o próximo, matam em nome de causas extremas. São os que pagam o sistema do hedonismo, são o homo festivus, a massa da civilização moderna: não penso, logo existo.

Que interessa, afinal, aprender se a morte é certa e o carnaval são 3 dias e a vida, vistas bem as coisas, não passa de um genérico de filme de animação, com cores festivas, monstros à solta e muitos medos? (Mesmo que seja na versão diabo do deserto, com o sangue na boca como se fosse um petisco intenso e a mediocridade das armas como um prolongamento do braço e da virilidade perdida).

Somos, a ocidente, os consumistas, os que pagam o capitalismo, os portadores do pessimismo latente. Isso parece chegar-nos. E se queremos combustível, do outro lado do mundo há quem nos venda barris cheios a troco de armas e imitação de glória.

Só estes raciocínios já me remetem ao beco do impuro – que aliás é uma das categorias do analítico que mais me cativa.

Há dias, propus o raciocínio em torno da Coisa. Em certos meios tenho-me feito entender no que quero dizer com isso. Recolhi de reações patéticas – e sobriamente ignorantes – a alguns pontos de vista de belas arestas vivas. Quero acrescentar que a História das Ideias não só se faz do inventário das Ideias mas da confrontação, esotérica ou exotérica, do que é firmemente possível de ser chamado Ideia. Assim, acrescento alguma coisa. À coisa. Dizendo que Coisa faz parte – tal como ente ou algo – a uma extensão que, na tendência longa do pensamento, conduz, desde os escolásticos, ao entendimento do transcendente. E das transcendências. E dos transcendentes. Os antigos diziam ens (o ente), aliquid (o algo) e res (a coisa). Por exemplo: vivemos numa Res Publica, chamamos-lhe República, a coisa pública.

Desdenhar a Coisa é ficar eternamente no genérico ilusório do ‘Monstros e Companhia’ e evitar que o impuro se entenda como categoria essencial do que vivemos.

 

E agora...toca a sair do blog.

  

Alexandre Honrado

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