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eu·ta·ná·si·a

(grego euthanasía, -as, morte fácil, morte feliz) substantivo feminino 1. Morte sem dor nem sofrimento. ≠ CACOTANÁSIA 2. Teoria que defende o direito a uma morte sem dor nem sofrimento a doentes incuráveis. 3. Acção que põe em prática essa teoria.

Passados os sofrimentos políticos nacionais, em torno do Orçamento de Estado de 2016, relançam-se novos temas de debate para as reuniões plenárias, palco de acesas trocas de palavras, em particular, desde as eleições legislativas. A mesa virou-se.

Se antes a resignação era (quase) certa, a postura de qualquer despreocupado cidadão perante qualquer comunicação "austera" do ex-Governo num qualquer canal de televisão, quando a Esquerda conquistou a maioria parlamentar - goste-se ou não da situação actual, os deputados foram eleitos, com uma nova ideologia política na linha da frente -, os sentidos dos portugueses alinharam-se com a vida política e, em sintonia, uma esperança renasceu. Mesmo com a "caça às bruxas" dos dirigentes da direita, pouco resignados com o seu destino, uma nova franja de sonhadoras, idealistas e jovens existências voltaram a acreditar que os números não comandam as pessoas. Quiçá o contrário.

 

Perante a evidência de um inesperado resultado eleitoral, um xeque-mate que transformou os meros peões de outrora em líderes supremos do hemiciclo, as prioridades mudaram. A mesa virou-se e o que estava no fundo da lista, muitas vezes, acabou por ficar no topo. E, agora, longe das peripécias de quadros, gráficos e linhas coloridas - da oferta e da procura -, surge um dos temas mais complexos e polémicos da existência humana: a eutanásia.

 

Perante a nossa insignificância teremos o direito de tirar a vida a outra pessoa? Se um doente terminal estiver agarrado a uma cama, como um vegetal sem capacidade para racionalizar, para de sua livre e espontânea vontade tomar decisões, especialmente, deste teor, há alguém que possa fazer essa escolha? Se sim, quem? Um familiar? E se for um doente, no fim da vida, sem familiares, nem amigos? Nesse caso não deverá ser a instituição hospital que deve fazer uma escolha? E até que ponto é que, numa época em que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está num beco sem saída, onde os erros por negligência aumentam e os salários dos médicos diminuem, um hospital pode manter um ser humano, acamado, quando é sabido que está em sofrimento, sem salvação possível? Ou que está ali, simplesmente deixado numa cama, ligado a uma máquina, só para manter o corpo em "recarregamento"? Tal como a vida em dignidade é um direito, a morte também o deverá ser.

 

Ninguém escolhe nascer, nem quando deve vir ao Mundo. Mas estando cá, todos são iguais. Somos todos feitos da mesma massa, matéria, energia. O que lhe quiserem chamar. O dever de uma sociedade e de um estado de direito será proporcionar o máximo de equilíbrio entre os seus pares, sem discriminações ou olhar ao interesse de "troca por troca". Ainda que a vida seja considerada pelos puristas como uma religião a seguir, como uma fidelidade canina, seja qual for a oração, ela não deixa de pertencer ao indivíduo que a carrega. E, nesse sentido, se uma doença o impossibilita de dirigir a sua existência nas circunstâncias que conhecia - ou noutras, ainda que mais adversas, mas com o Rendimento Mínimo de Dignidade -, ele tem o direito de morrer.

 

A decisão de ficar ligado a uma máquina, sabendo que nunca mais voltará ao que era, às vezes sem ter essa consciência, não passando de um vegetal inerte, numa cama de hospital, como uma planta ou uma árvore que perde as folhas e acaba seca no meio de um deserto, não deve ser tomada... porque é a única opção viável. É algo que deve ser refletido e escolhido, após dado período de tempo, depois de saber que há a possibilidade. Ninguém deve ser abandonado numa cama de hospital, porque o direito à vida é supremo e a imoralidade de morrer sobrepõe-se. Não, não, não. Se eu quiser saltar de uma cama de hospital para algo que não conheço, gostaria que me deixassem. E sem rede de protecção.

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