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08
Abr16

MULTICULTURALISMO – UMA REFLEXÃO

por entratenamente

Eu venho da história. Como todos nós, afinal. A pequena diferença será que eu, e outros como eu, ao estudá-la e ao escrevê-la, encaramos o medo. Eu assusto-me de uma forma mais organizada - é pelo menos a forma como entendo este percurso profissional.

Os historiadores procuram revisitar o rasto da matéria. A reconstituição é feita essencialmente sobre o lado material do homem. E aquilo que fundamenta a matéria é sempre qualquer coisa que resiste ao idealismo conquistador. Porque a matéria não é pensamento – e não o sendo, é o próprio obstáculo que detém e surpreende o pensamento.

Os historiadores cresceram e entenderam que podiam trabalhar sobre o lado oposto: as mentalidades, o sensual, o afetivo, o místico, as ideias do homem, porque essas categorias constituem parte integrante das formas de pensar, de sentir e de agir do mesmo homem, nos seus momentos mais insípidos, sujos e não imaculados, como nos mais brilhantes, mais elevados e criativos.

Mas o homem é o homem. Como a cera que mesmo encostada ao fogo e a derreter-se não deixa de ser cera.

Gaston Bachelard dizia que apenas o espírito é científico e isso pode indignar os mais materialistas, os mais exatos, para usar uma expressão querida de alguns cientistas. Mas o espantoso é descobrir, entendida a história do homem, que o verdadeiro valor para um pensamento ingenuamente elementar é a obsessão e a intensidade.

Isso leva-nos a raciocínios mais intensos e à ponte, aqui procurada com o multiculturalismo e os desafios na hipermodernidade, em especial nas sociedades complexas – um termo hoje adquirido e temível, pois procura transformar a multiplicidade das sociedades históricas do mundo ocidental numa única categoria – a categoria de "sociedades complexas, por oposição ao estudo de sociedades mais simples, àquelas que nos anos 50 do século passado os antropólogos ainda chamavam sociedades primitivas, afinal, as primeiras sociedades humanas estruturadas conhecidas.

A história, sobretudo a história das ideias, permite-nos a aquisição de planos de visão isoqualitativos. Isto é, pontos elevados e aparentemente identificáveis, porque evidentes, das realidades contraditórias.

Explicando. Isto significa que o que realmente produzimos ideológica e ideograficamente traduz o que nos aproxima multiculturalmente ou, no contraditório, do que pensamos, ou ainda no subjetivo do que idealizamos.

Para além de sermos o que fazemos – ou omitimos – somos aquilo que pensamos.

É a diferença, a não uniformização, é o que na massa coletiva fazemos emergir como individual que encontramos zénites, pontos máximos e díspares onde ler o ser que somos. Numa ponta o que temos de mais humano, sensível, reflexivo e capaz de evoluir e no seu nadir, no ponto oposto, o que temos de insensível, egoísta, superficial.

Lê-se então outro fenómeno multicultural. Quando um grupo engendra um culpado transfere para ele a necessidade de suportar a culpa que pertence a todos. Há sempre o bode expiatório que encarna todas as culpas. O político que nos oprimiu, o ministro que nos onerou, o treinador que perdeu o jogo, o pai que nos ralhou.

A leitura do que é multicultural neste nosso início de século, jovem de 16 anos apenas, tem grande parecenças com o pior do que se passou no mundo, mas vemos, todavia, a angústia da civilização como coisa única, porque afinal este é o nosso tempo – e dele somos testemunhas.

Proponho no entanto outra visão incómoda. A leitura do que é multicultural neste início do século, regista índices elevados de passividade.

É aqui que pode sugerir-se alguma polémica: essa passividade é uma prática ativa, ritualizada e simbólica - e assim sendo parece cair na contradição. Mas não cai.

O indivíduo que insulta o condutor da frente ou lhe buzina histericamente porque o outro ficou uns segundos mais no sinal verde, coisa, aliás de bom senso, esse condutor agitado é tão passivo como o marginal que escreve palavrões nas paredes acabadas de pintar, atira garrafas aos membros da claque rival, destrói equipamento público, ou apedreja os seus semelhantes, praticando o vandalismo como escape, a coberto de uma estranha auto legitimação de atos, escondendo-se quase sempre na multidão, onde procura impunidade mas, de um modo aflitivo, reconhecimento.

A sua prática ativa confere-lhe a passividade dos fracos, no seu aparente momento de força movido pela frustração onde a fraqueza se dilui numa euforia de conquistas inúteis e por vezes autofágicas.

Finalmente, a ação é ritualizada, é imitação, os gestos são repetidos, os gritos copiados, os objetivos nem sempre claros mas de intenções claras e repetidas. como dizem alguns psicanalistas, o histérico diz a mentira sob a aparência da verdade.

Também dizem que os momentos de pulsão são despoletadores da satisfação.

É talvez por isso, que os momentos mais violentos do comportamento de massas das últimas décadas não tenham nenhuma base ideológica aparente – nem defendam causas legítimas ou dignificadoras do homem. Falo dos levantamentos de rua aparentemente motivados pelo aumento do preço dos transportes ou as batalhas campais em torno dos desafios de futebol.

A estranheza é verificar que para alguns, há uma violência opressiva – e uma violência redentora, para outros.

Esse plano da violência prepara talvez outro plano, o da luta armada, instrumentalizada, com interesse económicos mais elevados. Mas isso seria outra análise, outra apreensão.

Esta faceta cultural que aqui destaco, mobiliza exércitos sem honra nem causas humanas avaliáveis, e é um fenómeno de interpassividade. As grandes causas não estão presentes, não se luta pela dignidade da vida, por coisas como o pão, o trabalho, as liberdades, a diversidade, o respeito pelas diferenças, ou pelo direito à justiça, à saúde – mas pelo suportar passivo da manipulação que é o cerne onde nascem as intenções que comandam o agir.

 

Alexandre Honrado

 

 

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