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Insisto naquilo a que me convém chamar uma filosofia do impuro, pois ressalta sempre de ideias menos convencionais e de ideólogos impuros que me ajudam a interpretar o mundo cheio de impurezas que é o nosso. É nessa linha que evoluo, para tornar confortável algumas leituras e o que penso delas. Dessa estrada ou caminhada, trago agora, com a mesma classificação, a mesma designação, o impuro Rorty, o filósofo Richard Rorty, cuja obra principal terá sido a sua originalidade e, passada a escrito, o título Filosofia e o Espelho da Natureza. Irónico, aparentemente zangado com a filosofia que era a sua matriz e ganha-pão, passou à história como um pragmatista (há quem diga pragmático, mas não eu).

O pragmatismo foi desenvolvido no séc. XIX por um grupo de filósofos norte-americanos, em Cambridge, Massachusetts.

Talvez o correto seria falar em pragmatismos, no plural, dadas as nuances com que diferentes autores trataram o termo, desde os clássicos (Charles S. Peirce, William James,John Dewey e Ferdinand Schiller) até aos contemporâneos (Lewis, Quine, Putnam, Davidson e Richard Rorty, entre outros).

Resumindo-os, são aqueles sensaborões que, na linha de Kant (um dos nossos inimigos do Liceu) apostam que uma afirmação que não tenha qualquer relação com a experiência é desprovida de sentido: o conceito sem o conteúdo da experiência é vazio (o que deitaria por terra as utopias, as ficções de todo o tipo, o melhor do imaginário, digo eu…).

Rorty era americano e dessa estranha família filosófica.

Nascido em Palo Alto, cidade da Califórnia, a mesma cidade onde morreu o filósofo alemão, naturalizado norte-americano, Erich Hermann Vögelin, um dos maiores pensadores do século XX.

Ao contrário do que os Americanos supõem, Rory, como mais uma centena de filósofos dos EUA, é um perfeito desconhecido para a maior parte do mundo, mesmo do mundo pensante, talvez porque os norte-americanos não se tenham popularizado pela capacidade de pensamento mas pela eficácia da ação e como a expandem.

Aliás, se fizermos um inquérito juntos dos académicos portugueses, a poucos ocorrerá à primeira o nome de um pensador norte-americano como referência, mesmo sabendo que Michael Friedman, um dos maiores especialistas do mundo da obra de Emanuel Kant, esteve em Portugal no ano passado, ou que o português Onésimo Teotónio de Almeida, doutorado em Filosofia e fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos Interdisciplinares na Brown University, onde tem lecionado uma cadeira sobre Valores e Mundividências, é um dos maiores divulgadores do pensamento Americano junto de nós – e da literatura e cultura portuguesas junto dos Americanos. (Onésimo publicou recentemente em português uma obra impura, Despenteando Parágrafos, da qual todos os pensadores portugueses deviam discordar, embora, à falta de critério, tenham mantido sobre ela um silêncio infantil). (Já falei deste livro neste blog).

Para além do americano Vögelin (nascido na Alemanha), os filósofos americanos contam com Francisco José Ayala (nascido em Espanha e naturalizado americano; que foi padre durante menos de um ano!), Yasuhiko Kimura (nascido no Japão), Dietrich von Hildebrand (nascido em Florença, mas de família Alemã), Ernst Mayr (nascido na Alemanha), Herbert Marcuse (nascido na Alemanha), Paul Benacerraf(nascido em Paris, irmão do imunologista Baruj Benacerraf, galardoado com o Prémio Nobel)...

É normal portanto que não pensemos nos EUA como um país que produza grande pensamento (quando o faz é bastante bom na linha analítica ou na filosofia que reflete sobre as ciências ditas exatas, mas não nos chega como um continente da profundidade, sugerindo até que se troque a filosofia pelo utilitarismo.

Isto parece-me uma certeza, mas um pragmatista dir-me-ia que o pragmatismo estranha qualquer ideia de verdade e certeza inatas ou absolutas.

Hoje, quero dizer que fui ao quiosque mais próximo de casa e fiquei surpreendido – e não surpreso, como agora se deseja tanto escrever, para estar na moda dos textos bacocos – por deparar com um livro sobre Rorty – Rorty e a viragem pragmática. Comprei-o logo e deparei com uma reflexão muito interessante de Ramón del Castillo. O livro esqueceu-se do autor, mas aposto que é o mesmo Ramón del Castillo que se especializou em Filosofia contemporânea e estudos culturais e ensina na UNED (Universidad Nacional de Educación a Distancia). (Há outro Ramón del Castillo, cantor de Las Palmas, Gran Canária e aposto que não é o mesmo).

Da parte que, como investigador, mais me interessou do livro, escreverei em breve. Logo verão.

 

Alexandre Honrado

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