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22
Mar16

Nem todas as culturas são iguais

por Orlando Figueiredo

Read the English version: Not all cultures are equally valuable

 

No seu livro intitulado “The Moral Landscape”, Sam Harris, um acérrimo defensor do ateísmo e parte de um movimento conhecido como Novo Ateísmo” discute e critica o relativismo cultural politicamente correto. Harris argumenta que existem culturas que causam sofrimento, enquanto outras promovem o bem-estar dos seus cidadãos. Em consequência, devem ser valorizadas de forma diferente. A paisagem (landscape) do título está relacionada com a forma montanhosa que os gráficos 3D – que tem por variável dependente o nível de bem-estar e por independente as diferentes culturas –, assumem. Montes mais elevados representam, naturalmente, sociedades onde se conseguiu atingir um maior bem-estar. O autor também reconhece a subjetividade do termo bem-estar. Contudo, como neurocientista, ele propõe métodos objetivos que permitam a sua avaliação, nomeadamente, recorrendo à medida das concentrações, nos nossos cérebros, de moléculas relacionadas com a felicidade.

Os acontecimentos recentes no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maelbeek, na mesma cidade, mostram, infelizmente de novo, quão correto Sam Harris está. Muitos afirmarão que isto não é o Islão, que o Islão é uma religião da paz e que a causa do terrorismo é o radicalismo e não o Islão. E estão certos. Acredito que uma larga maioria dos muçulmanos não se revê nos métodos do daesh. Contudo, não se pode esconder o facto de que o Islão, como as outras religiões abraâmicas, promove uma cultura misógina e machista e uma sociedade homofóbica e xenófoba. Se os autointitulados muçulmanos, à semelhança dos autointitulados judeus ou cristãos, defendem os direitos humanos é apesar da sua religião e não por causa dela. De facto, é preciso uma grande flexibilidade interpretativa para ver o “Antigo Testamento”, a “Tora” ou no “Corão” como textos de paz. Também, estou convencido que a maior parte destas pessoas são Muçulmanos, Cristãos ou Judeus, não por escolha sua, mas por que foram educados nesses contextos e nunca tiveram oportunidade de fazer uma leitura crítica dos seus textos religiosos.

Está na altura de parar com os discursos politicamente corretos de que todas as culturas são igualmente válidas. Indivíduos têm sempre de ser tratados como pessoas, cujas vontades devem ser respeitadas, dentro dos limites da democracia, por culturas laicas ou religiosas.  Mas, culturas e ideias devem ser profundamente criticadas e, se for esse o caso, denunciadas.

Afinal de contas prefiro a Bélgica à Arábia Saudita, e não é apenas por que as mulheres podem conduzir livremente no primeiro país.

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7 comentários

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De lif a 22.03.2016 às 14:27

Defendo o multiculturalismo, julgo que tem vantagens para todos. No entanto, também acho que nenhuma cultura ou religião tem o direito de limitar a liberdade alheia. Cada um tem o direito à sua religião, e os atos individuais não devem ser tomados como coletivos, mas, neste caso, não posso discordar de Harris. Parabéns pelo post!
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De Orlando Figueiredo a 22.03.2016 às 14:59

Olá Carolina,
Obrigado pelo cumprimento.
Nada tenho contra o multiculturalismo, pelo contrário. Não estou é disposto a aceitar multiculturalismo a qualquer preço. Como afirmei, jamais porei em causa os direitos individuais, dentro das fronteiras dos deveres democráticos. Contudo, estou um bocado cansado de pirocas e mamocas de pedra tapadas e de almoços sem vinho, para não ofender mentes tacanhas e medievais.
Abomino o racismo, porque visa pessoas e não ideias. Defendo, porém, profundamente o culturalismo, no sentido em que promove o desenvolvimento de uma crítica erudita e reflexiva das culturas e sociedades. E, se vier de dentro, melhor.
Não é à toa que não se ouve falar de secularismo no mundo islâmico; é porque as ditaduras religiosas não o permitem: http://www.huffingtonpost.com/ali-a-rizvi/post_10571_b_8615610.html ou http://ex-muslim.org.uk/manifesto/
Mais uma vez obrigado, pelo simpático cumprimento.
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De lif a 22.03.2016 às 15:33

Concordo, e também acho que o respeito entre culturas deve ser mútuo, não faz sentido pedir que respeitem a nossa quando a "escondemos" para não ofender suscetibilidades. No entanto, cada vez mais me parece utópico um mundo em que a diferença é tolerada, e por isso considero de louvar este tipo de artigos.
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De Anónimo a 22.03.2016 às 15:54

Não se pode ser tolerante com fanáticos. O resultado está á vista.
Como se pode respeitar quem não nos respeita, sem esperar que continuem a acontecer massacres como os que se repetem cada vez mais?
Enquanto vigorar esta cultura do respeito pelos diferentes credos, não passamos de carneiros numa fila de um matadouro.
É politicamente correcto num mundo civilizado não aceitar a presença e regras de religiões medievais? Claro que não, mas também não é correcto continuarem a morrer inocentes nas mãos de f0rnicador3s de cabras, que se baseiam nessas mesmas regras para se fazerem passar por mensageiros de um qualquer profeta alucinado.
Esta é uma das situações onde o sistema russo é de longe muito mais eficaz.
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De Anónimo a 22.03.2016 às 16:18

Um Bom artigo com o qual concordo.
Sinceramente já estou farto da tolerância e respeito para com quem não respeita nem tolera os outros e as suas culturas ou diferenças. Pouco me importa se são muçulmanos, cristão ou ateus...
Acho que temos de descer uns degraus na nossa Ascenção civilizacional para podermos sobreviver, ou então perecer e ser dominados por esta gente louca.
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De Anónimo a 22.03.2016 às 19:40

Boa tarde,

Concordo plenamente, esta ideia do politicamente correcto já cheira mal e não pode ser aplicada, alias tem de ser esquecida para que se possa lutar devidamente contra estes fanáticos tacanhos que são uma forte doença na Humanidade.....
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De Leonor a 22.03.2016 às 20:38

Gostei muito do post! 100% de acordo !

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