Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



02
Jun16

O aparelho contra Corbyn

por Flávio Gonçalves

Em Agosto de 2015 foram milhares os militantes do Partido Trabalhista britânico da tendência de esquerda afecta a Jeremy Corbyn que foram impedidos de votar, mesmo assim o aparelho centralista do Labour não conseguiu evitar a avassaladora eleição de Corbyn. Desde então que o aparelho e grande parte dos deputados do centro-esquerda britânico tem feito tudo o que pode para forçar a queda e a saída do actual secretário-geral. A medida mais recente apanhou de surpresa centenas de militantes trabalhistas (e espera-se que afecte milhares nas próximas semanas): o aparelho do Labour começou a purgar militantes indiscriminadamente acusando-os de “pertencer a associações políticas externas ao partido” ou, curiosamente, de “serem anti-semitas” por terem defendido a criação de um Estado palestiniano (algo que o Partido Socialista também defendeu há semanas, como muito bem elogiei nestas linhas). Ou seja, de pertencerem aos vários sindicatos, organizações não-governamentais e associações apolíticas (tais como a Tirem As Mãos Da Venezuela e de solidariedade para com a Palestina) que declararam publicamente o seu apoio à candidatura de Jeremy Corbyn.


O aparelho centrista do Labour parece não ter reparado que até agora somente o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn e o Partido Socialista de António Costa, com a sua reaproximação à esquerda, conseguiram impedir a PASOKização (implosão e dispersão) do seu eleitorado tradicional. O aparelho centrista do Labour não tendo conseguido vencer Corbyn nas urnas, aproveita agora a boa vontade e desejo de reconciliação e união dos trabalhistas sobre a sua direcção para perseguir, ostracizar e expulsar os militantes (tanto veteranos como recentes) que se têm manifestado publicamente como apoiantes da actual linha do partido (ou melhor, do líder).


É extremamente triste verificar que muitos socialistas europeus, pese embora os exemplos de Espanha, Grécia, Itália, França e Áustria, não tenham ainda percebido que o seu centrismo militante, o seu sectarismo e a sua cegueira em compreender as novas realidades do mundo é que tem empurrado o seu eleitorado para os partidos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Expulsar os seus próprios camaradas para forçar a queda de um líder que não conta com o apoio de um grupo parlamentar marcadamente centrista é uma tentativa de suicídio eleitoral digna dos Monty Python. Esperemos para ver até onde vai esta verdadeira caça às bruxas.

Autoria e outros dados (tags, etc)