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11
Abr16

O ELOGIO DA COISA

por entratenamente

Lembro-me da indignação de uma velha mestra – e, muitos anos mais tarde, de uma nova amiga – quando se aludiu à coisa. Pior, quando se lhe deparou o dever de prestar atenção ao estudo da coisa, sendo que para lá dela e antes dela, muito não se assimila e outro tanto se dilui. A coisa enquanto entidade analisável e analítica, é para levar a sério. É um objecto – uma coisa? – que ressalta do discurso e o consubstancia. Tem na produção das significações um lado sedutor, rico e produtivo, que o discurso nem sempre assimila. Para o leitor de literatura, a coisa faz sentido. É o que reserva, depois de apreciar a casa arrumada dos conteúdos – e dos valores que lhe estão inerentes – como registo do que está para lá da articulação do discursivo. Assim, a coisa é a coisa literária, mas a coisa literária em nós. E isso é, afinal, o literário para lá do seu objectivo: o objecto e o que dele se sedimenta. Torna-se parte de nós como uma entidade – uma coisa – para lá da proposta, pois passa a identidade. Como já foi visto por quem vê coisas destas, de um lado estará a especificidade do literário – do outro o estatuto da coisa literária. O poema aguça esse contacto, a ponte, a travessia, mas sobretudo estabelece de forma irredutível (dir-se-ia mais: inconvertível) sendo mais o que não é e mais a coisa que passa a ser porque não se esgota no ponto de partida, não é um ponto de chegada, mas a própria coisa que a nossa vinculação interior exige ao desarticular a mensagem, fazendo-nos parte dela e dela emanando o que podemos ser. A coisa, vista assim, nunca é espaço coletivo, perdoe-se a afirmação. É mesmo um triunfo do individuo que se divorcia da convenção social, da linguagem instituída e que ousa libertar-se como ser, rumo a um oásis que lhe é sempre inconveniente, porque a coisa não é feita para a essência do regulamentar, mas para a subversão que nos devemos atribuir. Ésquilo, Quixote, Shakespeare, propuseram-nos coisas que intelectualmente nos abalaram – em especial quando nos interrogaram sobre a (in)sanidade que somos perante os personagens que nos tangem.

Sem a loucura, que é o homem/ mais que a besta sadia,/ cadáver adiado que procria? Fernando Pessoa transforma a coisa pergunta na coisa afirmação. E para lá deles e das respostas estamos nós, uma coisa ao mesmo tempo insubstituível e perecível. Um canteiro literário onde as sementes por vezes são capazes.

 

Alexandre Honrado

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