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17
Abr16

O futuro? Mas que raio!

por entratenamente

Estamos aqui sentados, numa manhã do presente; se planos tivermos não ultrapassarão as próximas horas. Não porque qualquer catástrofe eminente nos aguarde, pelo menos mais evidente do que qualquer outra que o mundo já sofreu, mas apenas porque deixou de estar na nossa natureza o estado de espírito que inclui o futuro, a sua ideia, a sua responsabilidade ou previsão. Viemos de um passado inquieto, temos o presente como passagem fugaz e disfrutamos da felicidade paradoxal, essa utopia contemporânea que nos algema, que pode acabar de um momento para o outro mas que nos estabiliza entre dois traços extremos: a nossa ansiedade e a nossa relação com o que consumimos. Algum deus económico estará agora nos mercados a decidir por nós. É melhor portanto reduzirmos as nossas vidas ao que der e vier. O divino é sempre inesperado.

Neste mundo de impurezas que é o nosso, não passamos de ávidos traidores do mal-estar generalizado.

Hedonistas, consumistas, individualistas, narcisistas, escavamos trincheiras para esquecer a incerteza e a insegurança, patamares do precipício que criaram para nós – e que permitimos criar, vistas bem as coisas. Enchemos - para tentar vencer o vazio. E é nisso que a tal ‘felicidade paradoxal’ nos aconchega. Criamos um estado de espírito de contentamento, alinhamo-nos, vestimos o fato de treino, passeamos pelo centro (que é sempre comercial), suspiramos com as notícias sem lhes prestar muita atenção. Somos a base de sustento de uma sociedade de alto rendimento, expansiva  e global. Vamos à loja barata e compramos o que podemos. Isso dá-nos um nivelamento àqueles que têm poder de compra (tão grande que nos compram). Tudo é descartável e frágil, até as nossas utopias. 

Escrevemos até coisas como estas, à procura de uma filosofia distractiva. Porque se não nos distrairmos, pensamos. E se pensarmos teremos uma vontade imensa de mudar o mundo, o destino e até de olhar para o futuro, o que é assustador.

 

Alexandre Honrado

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