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04
Mar16

O QUE O VENTO ME ENSINA

por entratenamente

Seco as lágrimas de modos muito variados. Como se fizesse a construção de um vitral, desses que, há muitos anos, na idade média sobretudo, desafiavam os olhos com cromatismos e surpreendentes simbologias e que procuravam o sagrado onde a dúvida se movia. Mas a comparação fica por aí: vidros em estilhaços, desenhos que se completam, cores que só adquirem dimensão se a luz as promover e se lhes tocar a frieza intensa da incompreensão. Quando se perde e se fica no vazio, nem a imponência nem a  espiritualidade ressaltam da vidraça.Desço ao mais fundo de mim tantas vezes que temo não voltar. Procuro nos braços vazios o conteúdo de abraços perdidos. E depois ando à procura de pássaros, de sol e de risos porque sei que a minha dor é sempre pequena quando a comparo. Não sei bem com que palavras se reconforta. Se eu falasse mais vezes comigo, enlouquecia. Ou pelo menos mudava a minha loucura para um patamar mais desinquieto. Sou do emocional. Mesmo que não queira assumir o que a sensualidade me impõe, sou do que a emoção me traz e do que a ela levo. Isso transtorna-me muito. Faz de mim humano e há cada vez menos espaço para o que é humano e para quem é humano. Um deserto sem oásis. Vi nas notícias uma enorme baleia albina. Sem cor, parecia uma representação do que estou a sentir agora. Lá ia, decidida. Seguir em frente, sem cor. Tenho muito a aprender com o vento, em suma.

 

Alexandre Honrado

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