Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



17
Fev16

O SOL DO BEM

por entratenamente

O meu primo Luís Manuel era o mais bonito dos rapazes da família. Até que voltou da guerra, com estilhaços numa perna e um osso esmagado que lhe pedia que coxeasse sempre e uma cicatriz na cara que lhe deixou o ar eterno de uma tristeza inenarrável. Foi ele quem me ofereceu como prenda de anos inesquecível a coleção completa d´Os Cinco, de Enid Blyton, sem embrulho, os livros todos juntos, amarrados por uma corda grossa. Juntos ríamos de outros primos que, em Luanda, diziam que não havia guerra e que a vida era boa e lhes corria de feição.

Os camaradas de armas do primo Luís voltaram com ele, mas em caixões de pinho, remetidos dos arredores da mesma cidade em paz...
Das minhas mais antigas e tenebrosas recordações conto, junto a esta, a de uma noite em que a Polícia Militar parou o carro em que eu estava, no banco de trás, com a minha avó à frente e ao volante um amigo da família, dos poucos que à época tinham carta.
Parámos, vindos de longa viagem, junto a um quartel da Ajuda, na cidade de Lisboa, obrigados por gesto duro da Polícia Militar.
Estivemos ali um bom bocado. Vindos do Cais de Alcântara, umas camionetas do exército português descarregavam para o pátio do quartel centenas de caixões de pinho. Os companheiros de armas do meu primo Luís Manuel. Nunca esquecerei a marcha silenciosa, o rosto de outros militares que se ocupavam da tarefa, o desfile da morte e o cheiro intenso da madeira e da vergonha.
Um dos polícias militares disse-nos que aconselhava a que esquecessemos o que víamos. O regime não gostava que se falasse dessas coisas. Aqueles eram heróis tombados pela Pátria – uma Pátria que não tínhamos, com filhos assassinados que a História nunca recompensaria, com pais a quem nunca foi pedido o perdão devido.
Eu era muito miúdo. Chorava do meu tamanho.
Acho que ainda choro quando vou aos facebooks desta vida e leio certas coisas – que antes é que se estava bem, que a guerra nunca existiu, que os nossos assassinos não eram os que nos governavam e que mandavam morrer ou matar em nome de coisa nenhuma - e outras barbaridades que aqueles caixões de pinho, que aqueles ossos esmagados e aquelas cicatrizes de tristeza inenarrável não merecem.
Choro silenciosamente, enquanto procuro o sol do bem.

ALEXANDRE HONRADO

Autoria e outros dados (tags, etc)