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03
Mai16

Outra vez, Áustria?

por Flávio Gonçalves

Ainda recordo o triunfo de Jörg Haider no meu tempo de liceu: era o fim do mundo, era o descalabro, o Apocalipse democrático e um longo etc. Na prática, o governo Conservadores/Haider pouco ou nada pôde fazer, tantas foram as sanções internacionais a que o país foi sujeito por os eleitores austríacos terem votado “mal”. Foi Sol de pouca dura, Haider consolidou-se como potência regional e a dita extrema-direita, de um modo geral, aparentava não ter ainda recuperado da polémica morte prematura do seu mais racional e carismático líder.


Eis senão quando os austríacos decidem voltar a tentar o Diabo, na primeira volta das presidenciais o candidato mais votado foi o da dita extrema-direita. Não há muito com que nos preocuparmos, afinal as eleições com duas voltas servem precisamente para filtrar esses radicalismos que por vezes caem no goto do eleitorado, o centro-esquerda vota no candidato do centro-direita e o centro-direita vota no candidato do centro-esquerda que passou à segunda volta… oh, mas esperem, o segundo candidato a ir à segunda volta é um independente!!! Algo mudou na Áustria, e não foi só a extrema-direita (que já ultrapassou o período do espantalho neo-nazi e actualmente visita Israel a convite de políticos do partido do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu), o próximo presidente da Áustria será um alógeno, um corpo estranho à habitual rotatividade do poder entre centro-direita e centro-esquerda, ganhe quem ganhar.


O actual governo austríaco resulta de um Bloco Central que une o Partido Popular e o Partido Social-Democrata, o dito “centrão”, que aparentemente (com base nestes resultados, divulgados alarmantemente a semana passada) irá resultar na PASOKização (implosão, entenda-se) do eleitorado socialista e no crescimento súbito da extrema-esquerda e/ou da extrema-direita. O primeiro acto de desespero da coligação governamental foi apresentar uma nova lei que restringe e limita o asilo dos refugiados vindos do Médio Oriente e aperta as leis que regulam a imigração, a verdade é que já chega demasiado tarde e tresanda a oportunismo para conseguir reter o seu eleitorado. Até ver só dois partidos da família política do Partido Socialista Europeu têm conseguido manter o seu eleitorado: o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn e o Partido Socialista de António Costa que, sabiamente, têm conseguido ir ao encontro dos desejos do seu eleitorado alterando os seus partidos por dentro e optando por alianças à esquerda em vez da suicidária PASOKização de “bloco central” pela qual têm optado os seus aliados europeus (e defendida cá, ingenuamente, pela ala segurista – que preferia ver Costa e Passos no governo em vez dos acordos à esquerda). A ver vamos o que nos trazem os ventos dos Alpes austríacos, uma vez mais…

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