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03
Abr16

PALAVRAS COM (E SEM) SENTIDO

por entratenamente

 

Confesso que dia a dia procuro um sentido para as palavras. Não um sentido novo, nem um revivalismo de momentos de glória em que a palavra gozava de algum estatuto, mas simplesmente um rumo que elas me apontem, já que quase toda a vida vivi delas – devendo-lhes humildemente tanto e, também por isso, respeitando-as com afeto e promoção de valores díspares e sinceros.

A palavra que é hoje, como sempre, uma fiel companheira dos meus dias, tem sofrido muito ao longo da minha existência. Já não falo da palavra mal usada e que aparece em livros daquelas editoras que negoceiam com bom lucro a capacidade de transformar um semianalfabeto num semianalfabeto publicado. Já não falo da promoção de lidadores mesquinhos da palavra que escrevem livros menores para públicos maiores. Não falo da palavra atraiçoada pelos órgãos de comunicação que não a têm como amiga mas como degrau sobressaltado para chegar a uma audiência que desentende normalmente a palavra, todas as palavras, crendo por vezes que as domina. Não; não falo de gramática, léxico ou sintaxe, porque ninguém fala disso. Mas da palavra do revestimento, a que devia opor-se sempre ao silêncio, a palavra em riste, a palavra que luta, a que não é mero exercício de sobrevivência mas o pundonor da tradução do indivíduo e – nele – do colectivo. Dizia o Paul Ricoeur que na escrita o texto é mudo. Só na sua interpretação falada adquire a beleza – e o lado áspero – dos sons. Dizia o Karl Kraus que se a língua está em ordem, também estará em ordem o mundo. Na escrita o texto é mudo, de facto, mas é o oposto do silêncio do medo, do silêncio da morte, do silêncio do desespero. E se a língua hoje está em desordem – basta escutar como nos chega – é mais aviltante reconhecer que o próprio mundo está em desordem. Confesso que procuro um sentido para mim e faço-o. Palavra!

 

Alexandre Honrado

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