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25
Mar16

QUANTOS ROSTOS TEM A MORTE?

por entratenamente

Acredito que a morte tenha um rosto assim. Indiferente. Com a pele disposta à luz que sabe negar aos outros. É com os rostos da morte que me inquieto. Vejo-a à minha volta, por vezes perto de mais, à morte. E a muitos dos seus rostos. Agora, o Tribunal Penal Internacional condenou o antigo líder político dos sérvios da Bósnia por crimes de guerra e contra a Humanidade. Não há razão para festejos. Radovan Karadzic é apenas um dos carrascos do mundo. Andou fugido doze anos, foi preso em Belgrado em 2008 e só agora escuta a sentença – e ainda pode apelar, em último caso. Dos onze crimes de guerra e genocídio foi condenado por dez. Só num desses crimes condenáveis contaram-se mais de oito mil mortos, todos muçulmanos bósnios. Fez-se agora uma coisa próxima da justiça. Falta, por exemplo, levar a tribunal os que massacraram os sérvios. E todas as fações em conflito. E todos os assassinos que ficaram por julgar. E a própria memória, vergonhosa, merecia um Tribunal. Se foi uma guerra política, foi também o exemplo acabado do que é uma guerra com motivos étnicos e sobretudo religiosos. Não há desculpa, para nenhuma das partes envolvidas. Mobilizou os três grupos étnicos e religiosos da região: os sérvios cristãos ortodoxos, os croatas católicos romanos e os bósnios muçulmanos. Cristãos. Católicos. Muçulmanos. A História ensina-nos tanto. Até que ninguém tem as mãos limpas de sangue. Isto passou-se há poucos anos. Não é um estranho relato medieval ou de um lugar do médio oriente onde os recalques se agudizam. Foi na Europa, esse Velho Continente do Humanismo e da geração da democracia, essa dos filósofos e dos arautos do mundo melhor – que coabitam a par e passo com a barbárie que permitem. Agora, um dos assassinos sofre a pena branda de 40 anos de cárcere. Tem 70 anos de vida. E se tiver consciência não a deixa transparecer no seu rosto de morte. Radovan Karadzic. Um nome que se junta ao dos líderes do alto escalão político dos sérvios, Momčilo Krajišnik e Biljana Plavšic, bem como o do croatas Dario Kordić ou do Jadranko Bozovic. Bem sei. Os nomes não vos dizem nada. E quem tem paciência para contabilizar quantos rostos tem a morte? Como, provavelmente, os nomes e os rostos de Hitler, Franco, Mussolini, Salazar ou mesmo Abu Bakr al-Baghdadi e dos seus fiéis acólitos, também não vos dizem coisa alguma. Ainda menos os mortos que produziram, o sangue com nos escreveram a História. Mas... Que raio! Afinal, a seleção joga hoje e temos mais que fazer.

 

Alexandre Honrado

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