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Gosto de ler biografias (até gosto de escrevê-las, é sabido); gosto de ler livros com entrevistas feitas com rigor ou pelo menos esclarecedoras e não manipuladas (sim, também gosto de fazer entrevistas); mas, em suma, gosto de ler, essa é que é a verdade.

Não sei se existe no mercado, pois só conheço a edição brasileira de 1990, feita pela Editora Nova Fronteira e com cuidada tradução de Lêa Mello e Julieta Leite que mereceram, mesmo assim, três revisores tipográficos, o livro que, em português do Brasil – sim, há um português do Brasil outro de Portugal e vários da diáspora - submete-se com o título "De perto e de longe – relatos e reflexões do mais importante antropólogo do nosso século". (Acresce que gosto de antropologia).

A obra é o diálogo entre as perguntas sóbrias e estimulantes de Didier Eribon (creio que em 1990 quem perguntava não tinha ainda a necessidade de ouvir-se, mas de ouvir) e as respostas de Claude Lévi-Strauss.

Aconselho o livro aos meus alunos. Sei que, não o encontrando, irei passar-lhe partes até formarem um todo, pois esta é uma reflexão preciosa.

Do muito mais que lemos no livro, esta definição faz-nos aterrar, isto é, estacionar para refletir: "se por religião entende uma relação com um deus pessoal, nunca fui perturbado pelo sentimento religioso".

Poucos como Claude Lévi-Strauss ensinaram história das religiões e a conheceram tão profundamente. Como todos os abençoados pelo rigor da descrença, Strauss tem a cosmovisão. Não resisto a “ouvi-lo” quando afirma: “(...) mesmo continuando surdo às propostas religiosas, cada vez mais sou invadido pelo sentimento de que o cosmos e o lugar do homem no universo ultrapassam e ultrapassarão sempre a nossa compreensão. Acontece que me entendo melhor com os crentes do que com os racionalistas empedernidos. Pelo menos os primeiros têm o sentido do mistério. Um mistério que, a meu ver, o pensamento parece constitucionalmente incapaz de resolver.(...) Não conheço nada de mais enriquecedor para o espírito, do que tentar seguir este processo – como profano; permanecendo consciente de que cada avanço faz surgir novos problemas, e de que a tarefa não tem fim”.

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