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17
Ago16

RETROCESSO

por entratenamente

O mesmo ser humano que é capaz da fabricação profunda de alguns mistérios, cabendo a poucos guardá-los e a muito poucos decifrá-los, não tem, na sua essência comportamental, quase nada de misterioso. É previsível e lacunar. Cria hábitos que muito dano infligem ao Outro, à natureza e a si próprio, e cultiva a ilusão do progresso como coisa irreversível. Esse engano leva a que, em tempos de pessimismo (força coletiva e contagiante que por pequenos e grandes indícios gera tendências desalentadoras e algumas vezes desesperadas, mesmo quando furtivas) se sintam sentimentos de desgraça e recuos enormes no que antes parecia conduzir a uma meta de quase felicidade. Se predições místicas lavravam o medo de outrora – recorde-se o milenarismo e o pavor do fim do mundo – causas de maus efeitos, como catástrofes climatéricas, acidentes em grande escala ou epidemias incontroladas assinaram as mais negras manifestações do retrocesso. No século passado, as contradições foram muito evidentes: ideologias triunfantes, revoluções, avanços técnicos e científicos, a par com a destruição, a guerra, a fome, a barbárie (no sentido mais moderno do pobre termo). Hoje, voltamos ao medo. Ao declínio da ideia de progresso. Os maus gestores trouxeram as crises, as políticas extremas lavraram o extremismo, o que não é fundamental trouxe os fundamentalistas. O que era laico e credível, volta a ser sacro e perecível. O âmago conceptual é ameaçado por inúmeras hérnias da superstição. O poder humano enfraquece, não porque o homem domine recursos mais frágeis, mas porque o conceito do Homem enfraqueceu. Se a Humanidade evoluiu no domínio sobre a Natureza – desgastando-a, degradando-a, destruindo-a – perdeu ao mesmo tempo o domínio sobre a Natureza Humana.

A uns séculos de progresso seguem-se agora décadas de retrocesso. Mostramo-nos incapazes de uma mentalidade coletiva. Vinga em muitos locais a desigualdade de género, a falta de escolaridade, a miséria cultural em suma, num conservadorismo que confunde a leitura possível do futuro que não se coaduna com conservas. Os ingleses chamavam à Idade Média a Idade das Trevas. Penso que a mesma só está a chegar agora. E vem iluminada por tochas de petróleo, explosões de armas pesadas brandidas por guerreiros mortais sem higiene nem pudor e traz afivelada a máscara desfragmentada e distorcida de uma imbecilidade que parece com vontade de triunfar, a menos que alguém lhe abra as portas do saber e de uma ilusão capaz de fugir de um futuro sequestrado.

 

Alexandre Honrado

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