Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



27
Mai16

SOMOS DE PATRANHAS E LAMÚRIAS

por entratenamente

 

Sempre achei que somos dados às lamúrias e às patranhas; essa dupla condição traz-nos de longe uma marca histórica onde nos embaraçamos (como gatos em fios de lã deixados inadvertidamente fora do cesto).

Como isto de estudar história tem que se lhe diga, acabamos por andar em trapézios voadores que nos levam de lá para cá (sem retorno) e que por vezes nos estonteiam.

Andava eu a ler sobre 1917 – sempre 1917 – e caio na lenda de Ourena (que já resumo) e cruzo com Afonso Henriques. O ponto de confluência foi a Crónica da Ordem de Cister, onde se fala, em alturas diferentes, do primeiro Rei e de lendas várias. Sem grande relação, acabo por descobrir que as aparições de 1917 e Afonso I de Portugal possuem, assim, um nexo notável (segredo revelado!).

A patranha, comecemos por uma delas, é de tal sorte que lendo, a par, o fragmento de crónica portuguesa que é designado habitualmente como IV.ª Crónica Breve do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e aquela a que se chama dos Vinte Reis, redigida num castelhano misturado com alguns elementos leoneses – dois textos, a mesma fonte – Afonso Henriques revela-se-nos um prodígio. Segundo a história, tinha ele 3 ou 4 anos, por ocasião da morte do seu pai, mas de acordo com o que nos ensinam, já com idade suficiente para compreender um longo discurso que este lhe fez, pouco antes de morrer, em frente das muralhas da cidade leonesa de Astorga que estava prestes a conquistar. Milagre sobre milagre.

Bom. Deixa-me cá pegar nos apontamentos... Pedro de Marìz, autor de um livro chamado Diálogo de Vária História (em 1597-1598), declarava que só na segunda edição da sua obra, os monges Cistercienses de Alcobaça acabavam de descobrir, nos arquivos do mosteiro, um documento em latim que ele publica e que se verifica ser nem mais nem menos que uma declaração feita 23 anos depois da batalha de Ourique, em Coimbra, em frente de vários bispos e de todos os grandes senhores da corte, pelo próprio Afonso I, a propósito da aparição (de Cristo ao nosso primeiro rei). Em suma, outro documento falso que foi reeditado pouco tempo depois, em 1602, na Crónica da Ordem de Cister, pelo cronista oficial da ordem e do reino, Frei Bernardo de Brito. E cheguei onde queria. É este Frei Bernardo de Brito quem divulga a lenda de Oureana – na "Crónica da Ordem de Cister" (Livro VI, Cap. I).

O cristão Gonçalo Hermigues, com alguns companheiros, raptou uma princesa moura. Haviam feito um ataque surpresa, ao serviço de Afonso Henriques, a Alcácer do Sal, em dia de São João, em 1158. A moura, princesa, chamava-se... Fátima. Gonçalo trouxe-a para o lugar na Serra de Aire que mais tarde se veio a chamar pelo nome da princesa: Fátima! Mais tarde, no seu cativeiro, a moura apaixonou-se pelo cristão e foi batizada para poder casar com o seu amado. Para nome de baptismo - cristão! - escolheu Oureana. Daqui, segundo a lenda, teria tido origem o nome da vila de Ourém. (Vizinha da localidade de Fátima).

Claro que isto são registos de lendas, apontamentos meus (a melhor fonte, é o legado científico do professor Lindley Cintra), uma bisbilhotice sem rival. Podia começar aqui uma história das nossas pátrias lamúrias e das nossas patranhas várias. Mas tenho uma curiosidade maior: saber mais sobre quem era a Iria da Cova, sabendo de antemão que era uma deusa pagã do rio Nabão, nascida perto de Sellium, que hoje se chama Tomar e é boa terra de muitas lendas (diria patranhas e lamúrias, mas fico-me por aqui). Afinal, já para o ano, estas coisas andarão de boca em boca. Ou talvez não.

 

 

Alexandre Honrado

Autoria e outros dados (tags, etc)