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27
Fev16

VAN GOGH – A SUPREMA CARTA

por entratenamente

Digo-me que cortarei uma orelha. Que vou retirá-la do meu belo crânio e talvez guardá-la como um objeto desprezível. Quando está muito frio doem-me as orelhas – uma delas deixará, assim, de doer. Sinto que a loucura é maravilhosamente necessária e estruturante, a única forma capaz de preparar-nos para este mundo insano em que vivemos. Temendo não ser ainda louco, resolvi sê-lo. Primeiro respeitando os mais tresloucados e aprendendo com eles. Depois definindo para mim o que os outros não entendam. Creio que muitos ficarão satisfeitos. Hei de um dia dizer como John Perceval que nós, os loucos, interpretamos uma certa linguagem poética como uma sugestão a tomar à letra. Vão gostar, vós que me olhais, deste em que serei o que não sendo me tornarei. Posso não saber exatamente para onde vou. Descobri a saborosa qualidade do inesperado e do improviso. Sei profundamente o que não quero. Cortar uma orelha é só um princípio. Como arrastar para a cabeceira da cama uma velha cadeira com fundo de palha, para arrumar aí o que não tenho. A passagem do desejo obscuro à paixão profunda é um pássaro verde nas lajes azuis do céu amarelo. Tragam-me uma ligadura. Estou a rir.

 

Alexandre Honrado

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