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15
Set16

Ordenado de subsistência, procura-se!

por Flávio Gonçalves

Em 2014, Martin Schulz (SPD – Partido Social Democrata alemão, actual presidente do Parlamento Europeu), exigia no seu discurso de abertura do círculo de conferências “A Europa na Encruzilhada”, organizado pela Confederação Europeia dos Sindicatos, insurgia-se contra os baixos ordenados e exigia a adopção de uma lei europeia que obrigasse à criação de um “ordenado de subsistência”: “um dos pilares de uma economia social do mercado passa por todas as pessoas que trabalhem conseguirem ganhar um ordenado de subsistência” (não confundir com o Rendimento Básico Incondicional [RBI], já divulgado nesta mesma coluna).

No passado dia cinco de Agosto, Martin Yuille (membro do Partido Trabalhista britânico e investigador da Universidade de Manchester nas áreas da Saúde Pública e da Genética Humana) voltou a pegar no tema, realçando que foi precisamente a inexistência de uma lei que institua a obrigatoriedade de um ordenado de subsistência como uma das responsáveis pelo Brexit, responsabilizando a manutenção de uma política de ordenados baixos que, na prática, empurra os trabalhadores de países como Portugal, Roménia, Albânia e Polónia, onde os ordenados são tão baixos que já não permitem a subsistência do agregado familiar, para países como a Alemanha, Irlanda, Luxemburgo, França, Bélgica, Holanda e Reino Unido, onde os ordenados chegam a atingir um valor seis vezes superior ao dos países de origem dos trabalhadores.

Algo que, afirmamos nós, só será ultrapassado com a instituição de um Ordenado Mínimo Europeu quando finalmente houver coragem para se dar o passo seguinte e se transformar a União Europeia numa federação de Estados, com um Senado, um Exército, um Governo eleito e uma política económica comum (um sonho que herdamos de José Medeiros Ferreira). Mas uma vez que essa realidade se encontra cada vez mais distante, falemos então do Ordenado de Subsistência. Pois bem, ao contrário do RBI (que defende um ordenado universal para todos os cidadãos, mesmo os que não trabalhem), o Ordenado de Subsistência resume-se ao seguinte: a garantia de que o valor do ordenado em todos os países europeus deve ser elevado o suficiente para que os trabalhadores possam alimentar a sua família, pagar a casa, as despesas de saúde, poder comprar vestuário, pagar o seu transporte e as despesas com a educação, com a ressalva de que lhe sobre ainda uma pequena quantidade de dinheiro que possa conseguir poupar para fazer frente a alguma despesa inesperada. Denuncia Yuille que actualmente as pessoas “estão dispostas a abandonar as suas famílias, amigos e comunidades” para ir à procura de ordenados mais altos, “ou seja, são empurradas para fora dos países da União Europeia nos quais os governos permitem ainda a continuação dos ordenados baixos e dos baixos investimentos”. Quiçá o SPD alemão, o Partido Trabalhista britânico e até o nosso PS, todos membros da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, não conseguem tornar esta lei europeia em realidade? Já tarda!

Publicado originalmente no semanário O Diabo de 13 de Setembro de 2016.

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04
Set16

Marketing à portuguesa?

por Flávio Gonçalves

callcenter.jpg

Nas últimas semanas confrontei-me com uma situação que me parece preocupante e que me reconfirmou uma das certezas que já tinha: a de que em Portugal só tem direitos quem tenha dinheiro suficiente para os fazer valer em tribunal. Após vários anos com um mesmo operador de televisão, Internet e telefone (tanto fixo como móvel) recebi uma chamada de um dos seus ‘call centers’, aparentemente a minha fidelização mais recente de 24 meses estaria a terminar e queriam cativar-me para nova fidelização, ao responder que após quase uma década como cliente deles antes de renovar a fidelização iria ver primeiro as condições da concorrência iniciei um intercâmbio de vinte minutos que culminou com a senhorita do outro lado do telefone a insinuar, muito pouco profissionalmente, que eu seria estúpido pois “mais nenhum operador lhe oferece um preço tão baixo”.

Verdade seja dita, até à hora em que recebi a dita chamada nunca me tinha sequer ocorrido mudar de operador, pois agradava-me o interface deste e, passados quase 10 anos e sendo eu uma criatura de hábitos, preparava-me para, bovinamente (não fosse eu Touro), assinar uma nova fidelização. Consultando a concorrência encontrei um operador que não só me fazia um preço 30 euros mais baixo pelo mesmo serviço, mas que me permitia um ‘upgrade’ de ADSL (com velocidade de 1MB) para fibra (a 200MB). Dito e feito, iniciei o processo para mudar de operador. Passados sete dias, recebo nova chamada do call center fantasma do operador cujos serviços dispensara: receberam o pedido para que os meus números de telefone passassem para o operador concorrente e queriam saber se ainda era possível reter-me como cliente, oferecendo-me todos os serviços pelos quais estava a pagar actualmente cerca de 90€ mensais por 26,90€, ou seja 33,10€ abaixo do operador cujos serviços tinha acabado de contratar, caso cancelasse o contrato com o concorrente. Aliciado pela súbita poupança mensal de 63,10€ informei que iria contactar o novo operador para averiguar se ainda era possível (por me encontrar nos primeiros 14 dias de experiência dos serviços) dar como nulo o contrato. Informa-me o call center fantasma de que não os posso contactar directamente mas que me irão telefonar mais tarde, a uma hora que agendamos.

Ora bem, 30 minutos passados da hora acordada e não tendo recebido qualquer chamada, desloquei-me a uma das lojas do operador e pedi para ser contactado. Minutos mais tarde contactam-me e informam-me que o departamento de retenção do cliente que me contratou com aquela promoção é realmente muito específico e que só eles poderiam tratar do assunto, pedindo que aguardasse um contacto a qualquer momento. O tempo passou, nos 4 dias seguintes recebi 7 chamadas do call center a pedirem-me desculpa por o colega do dito departamento fantasma ainda não me ter contactado, mas que estava tudo bem e seria contactado.

Pois bem, uma vez que havia um pedido de cancelamento dos serviços da minha parte os mesmos foram cancelados no dia 10 Agosto, embora às 21:45 de dia nove o dito ‘call center’ me tivesse contactado uma vez mais para assegurar que seria contactado pelo departamento que me fizera a promoção de 26,90€ para permanecer como cliente. Dia 10 nada sucedeu, dia 11 telefono e respondem-me que lamentavelmente o prazo para a promoção terminara com a cessação do serviço mas, uma vez que eu cancelara o contrato com a concorrência e me encontrava sem qualquer tipo de serviço de Internet e televisão (o telemóvel, misericordiosamente, ainda funcionava) podiam reactivar o serviço que tinha antes ao mesmo preço que tinha antes… ou seja, 63,10€ mais caro que a oferta que me tinham feito se eu cancelasse o contrato com o concorrente e 33,10 que o preço que assegurara no dito concorrente. O mais bizarro de tudo isto foi admitirem que realmente o lapso tinha sido deles, uma vez que um dos seus principais ‘call centers’ teve que ser evacuado devido a um incêndio, logo não lhes fora possível efectuar todas as chamadas que tinham agendadas, mas que mesmo assim os prazos ainda prevaleciam.

Por sorte consegui ainda reactivar o contrato que tinha denunciado na concorrência, cujos serviços também têm os seus lapsos, por exemplo: em pleno século digital o novo operador, por lapso, não contém qualquer informação no seu portal internético nem nos seus folhetos de que alguns dos canais que inclui no seu pacote só podem ser vistos “ao vivo” alegando que os mesmos devido a “direitos de autor” não podem ser gravados e, quando informamos que os seus concorrentes permitem a gravação desses mesmíssimos canais (um via gravador externo e o outro directamente na sua ‘box’) os funcionários das lojas e dos ‘call centers’ estão instruídos para informar os clientes de que os concorrentes estarão a “cometer uma ilegalidade” quando nitidamente o que sucede é que esses canais efectuaram contratos de semi-exclusividade com alguns operadores e que os restantes se encontram limitados a uma segunda opção em que é possível visionar os ditos canais, e logo incluí-los na sua grelha e publicidade sem incorrer em nenhuma ilegalidade, mas na realidade induzem em erro os clientes que mudam de operador convictos de que terão o mesmo usufruto dos seus canais preferidos em todos os operadores.

Pois bem, após ter sido tão vilmente enganado (creio que não há outro termo mais justo a empregar) julgo que dificilmente alguma vez irei regressar ao meu operador de sempre, uma vez que os contactos foram todos efectuados por telefone e as gravações são propriedade do dito operador, não tenho como provar os factos que acima enumero, daí a omissão das identidades dos operadores que refiro, mas era uma denúncia demasiado grave para me calar. Aparentemente os operadores de telecomunicações em Portugal devem estar dependentes somente da mítica “auto-regulação do mercado”, tão querida aos capitalistas selvagens, é um Oeste selvagem onde só quem disponha de mundos e fundos para perder o seu tempo com processos em tribunal conseguirá fazer valer os seus direitos.

Publicado originalmente separado em duas partes no semanário O Diabo nas edições de 23 e 30 de Agosto de 2016.

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17
Ago16

RETROCESSO

por entratenamente

O mesmo ser humano que é capaz da fabricação profunda de alguns mistérios, cabendo a poucos guardá-los e a muito poucos decifrá-los, não tem, na sua essência comportamental, quase nada de misterioso. É previsível e lacunar. Cria hábitos que muito dano infligem ao Outro, à natureza e a si próprio, e cultiva a ilusão do progresso como coisa irreversível. Esse engano leva a que, em tempos de pessimismo (força coletiva e contagiante que por pequenos e grandes indícios gera tendências desalentadoras e algumas vezes desesperadas, mesmo quando furtivas) se sintam sentimentos de desgraça e recuos enormes no que antes parecia conduzir a uma meta de quase felicidade. Se predições místicas lavravam o medo de outrora – recorde-se o milenarismo e o pavor do fim do mundo – causas de maus efeitos, como catástrofes climatéricas, acidentes em grande escala ou epidemias incontroladas assinaram as mais negras manifestações do retrocesso. No século passado, as contradições foram muito evidentes: ideologias triunfantes, revoluções, avanços técnicos e científicos, a par com a destruição, a guerra, a fome, a barbárie (no sentido mais moderno do pobre termo). Hoje, voltamos ao medo. Ao declínio da ideia de progresso. Os maus gestores trouxeram as crises, as políticas extremas lavraram o extremismo, o que não é fundamental trouxe os fundamentalistas. O que era laico e credível, volta a ser sacro e perecível. O âmago conceptual é ameaçado por inúmeras hérnias da superstição. O poder humano enfraquece, não porque o homem domine recursos mais frágeis, mas porque o conceito do Homem enfraqueceu. Se a Humanidade evoluiu no domínio sobre a Natureza – desgastando-a, degradando-a, destruindo-a – perdeu ao mesmo tempo o domínio sobre a Natureza Humana.

A uns séculos de progresso seguem-se agora décadas de retrocesso. Mostramo-nos incapazes de uma mentalidade coletiva. Vinga em muitos locais a desigualdade de género, a falta de escolaridade, a miséria cultural em suma, num conservadorismo que confunde a leitura possível do futuro que não se coaduna com conservas. Os ingleses chamavam à Idade Média a Idade das Trevas. Penso que a mesma só está a chegar agora. E vem iluminada por tochas de petróleo, explosões de armas pesadas brandidas por guerreiros mortais sem higiene nem pudor e traz afivelada a máscara desfragmentada e distorcida de uma imbecilidade que parece com vontade de triunfar, a menos que alguém lhe abra as portas do saber e de uma ilusão capaz de fugir de um futuro sequestrado.

 

Alexandre Honrado

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06
Ago16

De 1917 em passo certo

por entratenamente

 

Ao olharmos para trás, cem anos de recuo chegam, verificamos como o recentemente iniciado processo de secularização (que é sempre um processo de longa duração, em que são estabelecidas as normas para se reestruturar o universo religioso e a retirada do controle social do poder eclesiástico), sofreu um rude golpe. Se há cem anos recuássemos outros cem, aí teríamos a ilusão de progredirmos. A História, se não se repete nem se suspende quando os oráculos ditam, tem sempre surpresas. Hoje, tenho a ideia estonteante de que andamos para trás, como se a nossa superstição tivesse regressado, a nossa lacuna de saber voltasse ao nada, como se o homem primitivo que já fomos reclamasse a nossa presença, ao lado dos seus fanatismos, tolices emergentes dos seus inexplicados medos... A extinção das ordens religiosas, que ocorreu no contexto da consolidação do Liberalismo no nosso país, no final da Guerra Civil Portuguesa (1828- 1834), não tinha ainda a consolidação suficiente e a Primeira República ensaiava ainda um cenário de progresso e alfabetização cultural, quando alguns fenómenos se aliaram para o retrocesso. Não se conformando com a sua nova condição, a religião transfigurou-se, com a secularização, em mais uma prática cultural (ficando a par com outros princípios e com as mais diversas formas de fazer da sociedade). Com os espaços públicos esvaziados das referências divinas, a população conquistou o direito de abandonar as convicções e as práticas religiosas que séculos e séculos lhes haviam imposto. Isto é, ganhou mais uma etapa na sua liberdade individual, capacitada de uma nova responsabilidade (já não era obrigado a obedecer a regras que a tolhiam, optava por elas ou pela liberdade de ser religioso ou não, mas sempre fora de um contexto normativo e impositivo). A liberdade de culto é uma das mais preciosas aquisições do ser humano em estado livre. Deve-o ao iluminismo, à evolução da maturidade humana e da sua extraordinária força de ser simultaneamente razão e espírito, não dependendo do segundo para assegurar a primeira.  A religião, por sua vez, privatizou-se com o deslocamento para a “esfera privada das consciências individuais”. cem anos, os três fatores que impediram a progressão foram, sumariamente, a sangrenta e prolongada Guerra Mundial, que no início era vista como a solução da Europa e que, à medida que progredia, se tornou um grande e angustiante castigo universal. A segunda, que se prendeu com a revolução russa, que à distância era apresentada com uma dimensão demoníaca e assustadora. A terceira, com a ideia de que uma revelação do céu se materializara na terra, no lugar de Fátima. A Igreja católica, graças aos acontecimentos de 1917, arriscou uma opção que podia ter sido uma das suas maiores derrotas: trouxe a religião para uma esfera política. Tomou posição sobre a guerra, sobre a Rússia e foi atualizando politicamente, de uma forma ingénua mas muito eficaz, os discursos da “revelação” de Fátima. Com o tempo, as mensagens de Fátima foram ganhando dimensões políticas inesperadas, seguindo e adaptando-se ao curso da História. É claro que a Igreja não o fez de imediato. Estudou vantagens e prejuízos. Rumou depois ao político. Na altura, Salazar e Cerejeira, que tinham sido colegas de escola, aliaram-se para a mesma caminhada. O Presidente do Concelho e o Cardeal Patriarca fizeram um milagre: recuperaram o controlo da Igreja sobre a sociedade e os seus aspectos culturais. Era assim que Salazar queria, politicamente. Era assim que Cerejeira abençoava, cristãmente. De uma pequena terra sem méritos, de três crianças sem credibilidade que a Igreja via com um profundo ceticismo e descrença, fez-se um lugar no mapa do território nacional e da imagética popular. E exportou-se a dádiva. Mas sobretudo, fez-se um travão ao secular, que operava o progresso que o poder não desejava. Curiosamente, Salazar e Cerejeira não irão cedo a Fátima. Esperarão anos, talvez na dúvida de que o tempo lhes touxesse o que a razão desconhecia.

 

 

 

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02
Ago16

O cálculo do IMI

por João Ferreira Dias

 

As mudanças no cálculo do IMI pariram a paisagem como fator de avaliação. Se é um facto que na aquisição de um imóvel a localização, a exposição solar e a vista concorrem para o encarecimento do mesmo, o que dizer de imóveis antigos onde tais questões não entravam, necessariamente, na equação? O que dizer em imóveis outrora fora das geografias da riqueza e cujos moradores, de rendimento baixo, se encontram inseridos agora em território de alto valor de mercado habitacional? É razoável aceitar que a paisagem e a exposição solar entrem nas contas do IMI, prisioneiros que estamos do capitalismo sem ética. Mas por baixo dessa camada de razoabilidade capitalista onde residem as réstias de decência? 

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David van Reybrouck é um escritor belga, flamengo, com uma vasta obra publicada no domínio da poesia da prosa, teatro, ensaio político e histórico. Um dos seus mais recentes livros traduzidos para inglês, Against Elections: The case for Democracy, discute a crise da democracia, as suas origens e apresenta diversas propostas de soluções. Estruturado em sete capítulos, I – Sintomas; II – Diagnóstico; III – Patogénese e IV – Remédios, van Reybrouck identifica a crise da legitimidade e a crise da eficiência como os principais problemas da crise da democracia.

Ao longo do livro, Reybrouck desmonta o processo eleitoral, como método de perpetuação de uma aristocracia política que apenas difere da aristocracia tradicional por não se vincular à hereditariedade. O autor mostra como, após as revoluções americana e francesa, feitas pelo povo, o poder foi tomado por uma elite economicamente favorecida que instaura as eleições como forma de perpetuação do seu poder. Afastados das urnas durante séculos, foram as lutas de classe e de género que reclamaram para as classes governadas o direito ao acesso às urnas.

Reybrouck reconhece que o processo eleitoral foi útil durante os séculos XVIII, XIX e uma boa do século XX, para garantir o funcionamento da democracia. Contudo, por força do desenvolvimento tecnológico e de alterações no tecido social, esta instituição esgota-se por si só, no final do século XX e a crise democrática agrava-se nas duas primeiras décadas do século XXI.

Não se limitando ao diagnóstico e às suas raízes históricas, o autor apresenta alternativas que visam a constituição de órgãos paralelos aos órgãos eleitos através do sorteio entre os cidadãos comuns e que facilitariam o funcionamento de um modelo bi-representativo. As propostas assumem contornos de estados, mas também de reforma das próprias instituições europeias – casa última da aristocracia política europeia. Reybrouck não hesita em afirmar que o momento atual no contexto geográfico e político da Europa, é o cadinho ideal para iniciar a transição. A justificação assenta no facto de os países da União Europeia e a própria União apresentarem a coragem e terem uma história de participação popular que lhes possibilita inovar de forma criativa capaz de abalar os alicerces das suas fundações democráticas.

Ao longo do livro abundam os exemplos – Islândia, Irlanda, Holanda e Canadá – de processos de tomada de decisão por assembleias sorteadas entre elementos do cidadão comum – técnica que foi usada um pouco por toda a Europa nos mais de 3000 de história da democracia.

As propostas para o complexo sistema político belga também estão presentes, bem como as referencias a Portugal. No caso de Portugal, Reybrouck considera que a sua recente crise financeira poderia funcionar como mote para a formação de assembleias de cidadãos sorteados para que se pronunciem sobre questões chave para o país que não podem ser decisão exclusiva de políticos.

Reybrouck argumenta que os cidadãos travam, neste novo século, a luta pelo direito à emancipação política e a fazer a ouvir a sua voz na primeira pessoa e não através de supostos representantes eleitos. Há que fazer a transição do direito ao voto, que fez sentido nos últimos séculos, ao direito à voz e para isso “ necessário descolonizar a democracia. É necessário democratizar a democracia”.

Originalmente escrito em neerlandês, Tegen verkiezingen foi traduzido para francês, inglês, italiano e espanhol e é de leitura obrigatória para todos os que se interessam com a política e a cidadania no século XXI.

Na BookDepository, a versão inglesa custa 9,86 € com portes gratuítos - 5 a 8 dias para entrega.

Fica ainda um vídeo do debate no Channel 4 News intitulado people have a vote, but do they have a voice?, com David van Rebrouck.

 

 

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Por imperativos do meu trabalho de investigação, tenho vivido entre pilhas de documentos que me permitem espreitar a História do início do século XX, pondo em lugar próprio os testemunhos e fontes que se prendem com o que realmente procuro, isto é, o ano de 1917. Entre outras constatações, verifico que um certo clima europeu que antecedeu a guerra de 1914-1918 e os primeiros meses do conflito, se repete agora. Sem outras armas, os povos pegavam em pedras com a maior facilidade – e povos que trocam a inteligência pelas pedras enfermam a pena máximo aplicada aos seus dilemas. A opinião pública – os mais jovens eram quase unânimes - apelava à guerra e via nela a salvação coletiva, um sinal de desenvolvimento e riqueza, de vida próspera. Deixando de lado reformas políticas ou mudanças sociais, trocaram rapidamente as pedras por coisas mais mortíferas e eficazes e reduziram as suas vidas a escombros. Com as sinagogas, as igrejas e as mesquitas debaixo de fogo, o ritual da vida privada somava orações clandestinas. Os mortos acumulavam-se, a ruína lavrava. Os generais não viam pessoas nos seus mapas estratégicos – e teimavam na ofensiva. O Ocidente vivia mais um daqueles momentos em que foi muitas vezes pródigo: sitiado e incerto, oscilava entre o ruído dos gritos e das explosões e o angustiante silêncio da morte. Intelectuais pensantes, que nunca conseguem mudar o mundo, matavam ou morriam à medida que as suas ideias se confrontavam. A guerra acabou em cenário de vergonha, como todas as guerras. Disseram alguns que não voltaria a acontecer nada parecido. Fora brutal como nunca se imaginara. E, mau grado os avisos e as lições, em 1939 regressava - ainda mais brutal, muito mais sangrenta e infinitamente mais imbecil. As relações dos seres humanos uns com os outros nunca mais foram as mesmas. A religião foi o último reduto onde alguns guardaram a manutenção dos ritos humanos dos ciclos eternos – como os da morte e da regeneração, isto é, dos invernos ao renascimento e às colheitas. A secularização começou a aprender e a ensinar alternativas – e quando julgávamos que o progresso não era uma utopia, eis que o pior do homem regressa ao primeiro plano da vida. Hoje, nas redes sociais, na opinião publicada, nas mesas dos cafés, ouço o mesmo apelo às armas que condenou os nossos antepassados. Guerra, para acabar com a guerra, reclamam já muitos. O terror tem um novo rosto, o do assassino sem perdão nem glória Mohamed Lahouaiej Bouhlel, nome completo do principal suspeito do atentado levado a cabo, em Nice, esta quinta-feira, 14 de Julho, dia da Liberdade em França. Pelas vozes que se levantam, hoje como há cem anos, fez um bom trabalho. Há quem queira matar para não morrer – a questão permanece sem sintoma de termos evoluído.

 

À força de retirarmos pequenas pedras à natureza, as grandes montanhas acabam por cair-nos em cima.

 

Alexandre Honrado

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Insisto naquilo a que me convém chamar uma filosofia do impuro, pois ressalta sempre de ideias menos convencionais e de ideólogos impuros que me ajudam a interpretar o mundo cheio de impurezas que é o nosso. É nessa linha que evoluo, para tornar confortável algumas leituras e o que penso delas. Dessa estrada ou caminhada, trago agora, com a mesma classificação, a mesma designação, o impuro Rorty, o filósofo Richard Rorty, cuja obra principal terá sido a sua originalidade e, passada a escrito, o título Filosofia e o Espelho da Natureza. Irónico, aparentemente zangado com a filosofia que era a sua matriz e ganha-pão, passou à história como um pragmatista (há quem diga pragmático, mas não eu).

O pragmatismo foi desenvolvido no séc. XIX por um grupo de filósofos norte-americanos, em Cambridge, Massachusetts.

Talvez o correto seria falar em pragmatismos, no plural, dadas as nuances com que diferentes autores trataram o termo, desde os clássicos (Charles S. Peirce, William James,John Dewey e Ferdinand Schiller) até aos contemporâneos (Lewis, Quine, Putnam, Davidson e Richard Rorty, entre outros).

Resumindo-os, são aqueles sensaborões que, na linha de Kant (um dos nossos inimigos do Liceu) apostam que uma afirmação que não tenha qualquer relação com a experiência é desprovida de sentido: o conceito sem o conteúdo da experiência é vazio (o que deitaria por terra as utopias, as ficções de todo o tipo, o melhor do imaginário, digo eu…).

Rorty era americano e dessa estranha família filosófica.

Nascido em Palo Alto, cidade da Califórnia, a mesma cidade onde morreu o filósofo alemão, naturalizado norte-americano, Erich Hermann Vögelin, um dos maiores pensadores do século XX.

Ao contrário do que os Americanos supõem, Rory, como mais uma centena de filósofos dos EUA, é um perfeito desconhecido para a maior parte do mundo, mesmo do mundo pensante, talvez porque os norte-americanos não se tenham popularizado pela capacidade de pensamento mas pela eficácia da ação e como a expandem.

Aliás, se fizermos um inquérito juntos dos académicos portugueses, a poucos ocorrerá à primeira o nome de um pensador norte-americano como referência, mesmo sabendo que Michael Friedman, um dos maiores especialistas do mundo da obra de Emanuel Kant, esteve em Portugal no ano passado, ou que o português Onésimo Teotónio de Almeida, doutorado em Filosofia e fellow do Wayland Collegium for Liberal Learning, um Instituto de Estudos Interdisciplinares na Brown University, onde tem lecionado uma cadeira sobre Valores e Mundividências, é um dos maiores divulgadores do pensamento Americano junto de nós – e da literatura e cultura portuguesas junto dos Americanos. (Onésimo publicou recentemente em português uma obra impura, Despenteando Parágrafos, da qual todos os pensadores portugueses deviam discordar, embora, à falta de critério, tenham mantido sobre ela um silêncio infantil). (Já falei deste livro neste blog).

Para além do americano Vögelin (nascido na Alemanha), os filósofos americanos contam com Francisco José Ayala (nascido em Espanha e naturalizado americano; que foi padre durante menos de um ano!), Yasuhiko Kimura (nascido no Japão), Dietrich von Hildebrand (nascido em Florença, mas de família Alemã), Ernst Mayr (nascido na Alemanha), Herbert Marcuse (nascido na Alemanha), Paul Benacerraf(nascido em Paris, irmão do imunologista Baruj Benacerraf, galardoado com o Prémio Nobel)...

É normal portanto que não pensemos nos EUA como um país que produza grande pensamento (quando o faz é bastante bom na linha analítica ou na filosofia que reflete sobre as ciências ditas exatas, mas não nos chega como um continente da profundidade, sugerindo até que se troque a filosofia pelo utilitarismo.

Isto parece-me uma certeza, mas um pragmatista dir-me-ia que o pragmatismo estranha qualquer ideia de verdade e certeza inatas ou absolutas.

Hoje, quero dizer que fui ao quiosque mais próximo de casa e fiquei surpreendido – e não surpreso, como agora se deseja tanto escrever, para estar na moda dos textos bacocos – por deparar com um livro sobre Rorty – Rorty e a viragem pragmática. Comprei-o logo e deparei com uma reflexão muito interessante de Ramón del Castillo. O livro esqueceu-se do autor, mas aposto que é o mesmo Ramón del Castillo que se especializou em Filosofia contemporânea e estudos culturais e ensina na UNED (Universidad Nacional de Educación a Distancia). (Há outro Ramón del Castillo, cantor de Las Palmas, Gran Canária e aposto que não é o mesmo).

Da parte que, como investigador, mais me interessou do livro, escreverei em breve. Logo verão.

 

Alexandre Honrado

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16
Jun16

FENÓMENOS...RELIGIOSOS

por entratenamente

Lidamos certos temas com cuidados e pinças, há tanta ideia frágil, tanta opinião que pode estilhaçar amizades se não for bem interpretada...O facto de ensinar – e sobretudo aprender – o fenómeno religioso, por exemplo, não faz de mim um crente, mas consolida profundamente as crenças intelectuais que sempre me estruturaram. Quando digo isto em voz alta, há quem me olhe de soslaio; tentar fazer entender a alguns que o que me distancia das estruturas de crença é exatamente igual ao que aproxima outros tantos das mesmas estruturas, então, ainda é mais difícil de dar a entender. Confesso que tenho muita pena que pessoas que muito estimo acreditem em certas coisas. Elas pensarão o mesmo de mim. Elas encontram em ilusões coletivas o ilusionismo da sua individualidade. Eu vivo na graça da ilusão utópica. Não chego a verter lágrimas, mas faço um esforço enorme para aceitar aquilo que nelas me parece ser um mero arcaísmo. Mitologias e revelações nunca me fizeram entender quem sou, nem a natureza do mundo. Mas a verdade é que a verdade sempre foi inalcançável, em todos os tempos e lugares em que a procuraram. Uma das crenças que cresce – e que difere das utopias humanas, como a fé difere da razão – é essa dos nacionalismos, coisa vertida pelas ideologias sobre povos de individualismos preciosos. Uma das causas é exatamente a da territorialização das fés religiosas, um dos mecanismos mais ousados para o sentido do Nacional. A união pela língua, claro, ou a evolução das concepções do tempo está-lhe no germe. O que dizer por exemplo de um grupo de governantes que exibe a bandeira (nacional; símbolo da Nação) e vende a pátria enquanto lhe representa o Estado? Conceitos tramados, estes. O sentimento cultural e nacional de se pertencer a uma nação, leva-nos por vezes por cima da diferenças. E andamos à pancada pelas ruas da amargura para defender a honra das nossas cores, por exemplo as da seleção nacional em terras estrangeiras. Não deixa de ser tudo isto pertença de um mesmo conjunto: o dos fenómenos religiosos. É nas estruturas de crença que, afinal, o homem mais se dilui e mais se afasta do fantástico potencial em que podia crer(-se).

 

Alexandre Honrado

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13
Jun16

Um encontro com Manuel Frias Martins

por entratenamente

Foi num muito saboroso encontro – mais um – com o Professor Manuel Frias Martins, intelectual que me cativou pela leitura muito antes de conhecê-lo pessoalmente (eu corria o JL à procura dele, e das crítica literária que produzia, nesse Jornal de Letras onde também eu publiquei prosa, numa época que me parece já uma ficção esfumada); foi nesse encontro e pela gentileza de me oferecer dois livros seus, que revi uma frase inexplicavelmente perdida na minha memória. Manuel Frias Martins citou-a, em livro, e transcrevo-a agora: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”. 

A frase inquieta alguns – não me incluo, pois sou de uma formação onde os reinos pouco cabem e as inquietações vêm sempre dos meus pares e nunca daqueles que nos transcendem– e é de um filósofo político, Thomas Hobbes (1588-1679). Não há coincidências – mas no mesmo dia da oferta do livro e do reler da frase, num alfarrabista de Santa Catarina, vi na montra o Leviatã (de 1651, do mesmo Hobbes).
Quem lia as tirinhas de banda desenhada de um dos nossos jornais diários – onde, pensando bem, noutra época eu também publiquei prosa -,da autoria do norte-americano Bill Watterson, conhece as histórias do irrequieto Calvin (Calvino) e do tigre Hobbes, tigre de pelúcia que, produto do imaginário, materializa-se de acordo com os requisitos da ação que emerge do fantasioso Calvin, menino com ansiedades de adulto, sendo inseparáveis companheiros de inquietação e desventuras.
Calvin – homenagem a Calvino, cristão suíço-francês, da Picardia, que teve papel fundamental na Reforma Protestante – e Hobbes, que observava a natureza humana e a necessidade de governos e sociedades. No estado natural, enquanto que alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se ergue tão acima dos demais por forma a estar além do medo de que outro homem lhe possa fazer mal. Por isso, cada um de nós tem direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma guerra constante de todos contra todos (Bellum omnia omnes). No entanto, os homens têm um desejo, que é também em interesse próprio, de acabar com a guerra, e por isso formam sociedades entrando num contrato social.
João Calvino, que viveu entre 1509 e 1564 e discorria acerca da depravação total do homem e acerca da predestinação e Thomas Hobbes, autor da célebre frase “O homem é lobo do homem”- ou seja, cada homem é predador de seu próximo. Thomas possuía uma visão obscura e pessimista da humanidade (visão que o tigre da banda desenhada compartilha). Mas Calvino via o homem obscuro a cada passo.
Manuel Frias Martins num dos livros que me ofereceu – As Trevas Inocentes - explica tudo isto bem melhor do que eu, que apenas recolho sentimentalmente algumas frases que ele me inspirou. E não havendo coincidências, pensar que tudo isto se passou quando os talibãs afegãos condenavam publicamente o atentado perpetrado, pelos talibãs paquistaneses, contra uma escola do vizinho Paquistão, afirmando que matar crianças inocentes vai contra os princípios do Islão. Não havendo coincidências, fico aqui ao canto a pensar no que ressalta da violência. Do que ela ensina. Do que contem e do dela pode extrair-se. A Paz não seria entendida sem o conflito que a motiva e gera. A violência e o sagrado (Frias Martins cita o título de René Girar que usa a mesma expressão) estiveram sempre na mesma antecâmara, na mesma sala ritual, à mesma distância – por ventura uma legitima o outro e vice versa. A história mostra o que Hobbes escreveu: “o Reino de Deus é alcançado pela violência”. Mesmo sabendo que esse patamar é propriedade da utopia. Como o da paz – que é um estádio em que os homens convivem provisoriamente apaziguados com os seus conflitos.

Alexandre Honrado

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