Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


David van Reybrouck é um escritor belga, flamengo, com uma vasta obra publicada no domínio da poesia da prosa, teatro, ensaio político e histórico. Um dos seus mais recentes livros traduzidos para inglês, Against Elections: The case for Democracy, discute a crise da democracia, as suas origens e apresenta diversas propostas de soluções. Estruturado em sete capítulos, I – Sintomas; II – Diagnóstico; III – Patogénese e IV – Remédios, van Reybrouck identifica a crise da legitimidade e a crise da eficiência como os principais problemas da crise da democracia.

Ao longo do livro, Reybrouck desmonta o processo eleitoral, como método de perpetuação de uma aristocracia política que apenas difere da aristocracia tradicional por não se vincular à hereditariedade. O autor mostra como, após as revoluções americana e francesa, feitas pelo povo, o poder foi tomado por uma elite economicamente favorecida que instaura as eleições como forma de perpetuação do seu poder. Afastados das urnas durante séculos, foram as lutas de classe e de género que reclamaram para as classes governadas o direito ao acesso às urnas.

Reybrouck reconhece que o processo eleitoral foi útil durante os séculos XVIII, XIX e uma boa do século XX, para garantir o funcionamento da democracia. Contudo, por força do desenvolvimento tecnológico e de alterações no tecido social, esta instituição esgota-se por si só, no final do século XX e a crise democrática agrava-se nas duas primeiras décadas do século XXI.

Não se limitando ao diagnóstico e às suas raízes históricas, o autor apresenta alternativas que visam a constituição de órgãos paralelos aos órgãos eleitos através do sorteio entre os cidadãos comuns e que facilitariam o funcionamento de um modelo bi-representativo. As propostas assumem contornos de estados, mas também de reforma das próprias instituições europeias – casa última da aristocracia política europeia. Reybrouck não hesita em afirmar que o momento atual no contexto geográfico e político da Europa, é o cadinho ideal para iniciar a transição. A justificação assenta no facto de os países da União Europeia e a própria União apresentarem a coragem e terem uma história de participação popular que lhes possibilita inovar de forma criativa capaz de abalar os alicerces das suas fundações democráticas.

Ao longo do livro abundam os exemplos – Islândia, Irlanda, Holanda e Canadá – de processos de tomada de decisão por assembleias sorteadas entre elementos do cidadão comum – técnica que foi usada um pouco por toda a Europa nos mais de 3000 de história da democracia.

As propostas para o complexo sistema político belga também estão presentes, bem como as referencias a Portugal. No caso de Portugal, Reybrouck considera que a sua recente crise financeira poderia funcionar como mote para a formação de assembleias de cidadãos sorteados para que se pronunciem sobre questões chave para o país que não podem ser decisão exclusiva de políticos.

Reybrouck argumenta que os cidadãos travam, neste novo século, a luta pelo direito à emancipação política e a fazer a ouvir a sua voz na primeira pessoa e não através de supostos representantes eleitos. Há que fazer a transição do direito ao voto, que fez sentido nos últimos séculos, ao direito à voz e para isso “ necessário descolonizar a democracia. É necessário democratizar a democracia”.

Originalmente escrito em neerlandês, Tegen verkiezingen foi traduzido para francês, inglês, italiano e espanhol e é de leitura obrigatória para todos os que se interessam com a política e a cidadania no século XXI.

Na BookDepository, a versão inglesa custa 9,86 € com portes gratuítos - 5 a 8 dias para entrega.

Fica ainda um vídeo do debate no Channel 4 News intitulado people have a vote, but do they have a voice?, com David van Rebrouck.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

26
Mar16

Nem todas as culturas são iguais - a discussão

por Orlando Figueiredo

A versão inglesa do artigo aqui publicado sob o nome de Nem todas as culturas são iguas, publicada no meu blogue pessoal Pensatempos, com o nome Not all cultures are equally valuable, no mesmo dia em que aqui publiquei a versão portuguesas, suscitou alguma discussão no Facebook, em particular da parte de de dois bons amigos, que optei por publicar no mesmo blogue: “Not all cultures are equally valuable – the discussion”.

O texto foi publicado em inglês. O post do Facebook é apresentado abaixo.

 

It is time to stop with the politically correct discourse that all cultures are equally good and valuable. Individuals...

Publicado por Orlando Figueiredo em Terça-feira, 22 de Março de 2016

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

22
Mar16

Nem todas as culturas são iguais

por Orlando Figueiredo

Read the English version: Not all cultures are equally valuable

 

No seu livro intitulado “The Moral Landscape”, Sam Harris, um acérrimo defensor do ateísmo e parte de um movimento conhecido como Novo Ateísmo” discute e critica o relativismo cultural politicamente correto. Harris argumenta que existem culturas que causam sofrimento, enquanto outras promovem o bem-estar dos seus cidadãos. Em consequência, devem ser valorizadas de forma diferente. A paisagem (landscape) do título está relacionada com a forma montanhosa que os gráficos 3D – que tem por variável dependente o nível de bem-estar e por independente as diferentes culturas –, assumem. Montes mais elevados representam, naturalmente, sociedades onde se conseguiu atingir um maior bem-estar. O autor também reconhece a subjetividade do termo bem-estar. Contudo, como neurocientista, ele propõe métodos objetivos que permitam a sua avaliação, nomeadamente, recorrendo à medida das concentrações, nos nossos cérebros, de moléculas relacionadas com a felicidade.

Os acontecimentos recentes no aeroporto de Bruxelas e na estação de metro de Maelbeek, na mesma cidade, mostram, infelizmente de novo, quão correto Sam Harris está. Muitos afirmarão que isto não é o Islão, que o Islão é uma religião da paz e que a causa do terrorismo é o radicalismo e não o Islão. E estão certos. Acredito que uma larga maioria dos muçulmanos não se revê nos métodos do daesh. Contudo, não se pode esconder o facto de que o Islão, como as outras religiões abraâmicas, promove uma cultura misógina e machista e uma sociedade homofóbica e xenófoba. Se os autointitulados muçulmanos, à semelhança dos autointitulados judeus ou cristãos, defendem os direitos humanos é apesar da sua religião e não por causa dela. De facto, é preciso uma grande flexibilidade interpretativa para ver o “Antigo Testamento”, a “Tora” ou no “Corão” como textos de paz. Também, estou convencido que a maior parte destas pessoas são Muçulmanos, Cristãos ou Judeus, não por escolha sua, mas por que foram educados nesses contextos e nunca tiveram oportunidade de fazer uma leitura crítica dos seus textos religiosos.

Está na altura de parar com os discursos politicamente corretos de que todas as culturas são igualmente válidas. Indivíduos têm sempre de ser tratados como pessoas, cujas vontades devem ser respeitadas, dentro dos limites da democracia, por culturas laicas ou religiosas.  Mas, culturas e ideias devem ser profundamente criticadas e, se for esse o caso, denunciadas.

Afinal de contas prefiro a Bélgica à Arábia Saudita, e não é apenas por que as mulheres podem conduzir livremente no primeiro país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

09
Mar16

A favor de Donald Trump

por Jorge Salema

A comunicação social nos EUA parece em pânico com a mais do que provável eleição de Donald Trump para candidato do Partido Republicano. Que lê até pode ficar com a ideia que todas as pessoas contestam o candidato. Mas haverá razões para apoia-lo? O Saturday Night Live acha que sim.

 

Partilha

Video satírico da trupe SNL no facebook e Youtube, publicado em 6 de março.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

01
Mar16

Democratização monetária - Parte 1

por Orlando Figueiredo

A economia da dívida: diagnóstico

Imagine que havia instalado na sua cave ou garagem uma máquina de imprimir notas. Imagine, também, que punha essas notas a circular sem qualquer problema de reconhecimento da sua autenticidade. Dir-se-ia que estava a produzir dinheiro a partir do nada. O que aconteceria? Provavelmente teria uma visita pouco simpática das autoridades, a impressora apreendida, o esquema desmantelado e algum tempo a passar na cadeia. Porém, é precisamente isto que os bancos fazem quando criam empréstimos. Criam dinheiro a partir do nada e colocam-no em circulação. A diferença é que o fazem impunemente.

Não! Não produzem notas em impressoras furtivas instaladas em recônditas caves. A banca cria dinheiro a partir do nada através da emissão de dívida a privados, empresas e estados, cobrando, aos devedores, uma renda (juros) enquanto a dívida não for saldada. Paga-se, assim, por um bem que não existia antes de a dívida ser contraída. Esta situação conduz à deslocação de riqueza dos setores sociais mais desfavorecidos para os mais ricos o que confere um caráter obsceno a todo o processo.

O método é surpreendentemente simples.

A maior parte do dinheiro em circulação existe apenas na forma de números num sistema informático. Ainda que a maior parte dos cidadãos continue a olhar para o dinheiro como “dinheiro vivo” (notas e moedas), essa é uma ideia errónea da conjetura social atual. Evidências desta realidade resultam não apenas do facto de usarmos, progressivamente, menos “dinheiro vivo” e mais dinheiro eletrónico no dia-a-dia, mas, sobretudo, porque as transações de montantes avultados se fazem de modo exclusivamente eletrónico (quantas vezes se pagam carros ou casas em “dinheiro vivo”?).

Tomemos o exemplo de um empréstimo bancário para a compra de carro ou casa, no caso de um particular; para expandir um negócio, no caso de uma empresa; ou para construir uma nova ponte, no caso de um estado. A ideia comummente aceite é a de que um banco comercial empresta o dinheiro que os depositantes lhe confiaram. O processo é (aparentemente) simples e linear, como mostra a figura abaixo, que é, porém, falsa.

Democratização Monetária

Esta ideia dúbia, de que os bancos se limitam a emprestar o dinheiro que lhes foi confiado pelos depositantes e a cobrar juros por isso, é comummente aceite e frequentemente ensinada nas cadeiras teóricas das faculdades de economia um pouco por todo o mundo. Mas este está longe de ser o modus operandi das instituições bancárias comerciais.

Na realidade, sempre que um banco procede a um novo empréstimo, o banco cria dinheiro ex-nihilum, dinheiro que não existia antes do mutuário solicitar o empréstimo ao banco. Sempre que um mutuário pede um empréstimo ao banco, esse valor é acrescentado na folha de passivos do banco e, simultaneamente, à folha de ativos. A primeira folha dá conta das saídas monetárias e a segunda das entradas, sejam elas feitas sobre a forma de depósito ou pela emissão de dívida. O balanço global é nulo, mas há novo dinheiro em circulação que não havia antes da contratação do empréstimo. O banco cria, assim, dinheiro, moeda eletrónica, e faz-se pagar por isso.

Esta situação é ainda mais peculiar na medida em que bancos nacionais, como o Banco de Inglaterra ou o Banco Central Europeu, não cobram quaisquer interesses pela criação e colocação em circulação do dinheiro – os bancos privados são pagos para se imiscuírem numa competência exclusiva dos bancos nacionais. A questão ética torna-se manifesta. Contudo, a ética está longe de ser o maior problema de todo o processo. Dado que o dinheiro colocado em circulação resulta da criação de dívida, o sistema económico atual só sobrevive com a continua emissão de dívida (a particulares, privados e estados). Saldar as dívidas aos bancos é acabar com o dinheiro em circulação.

O Reino Unido tem desenvolvido uma forte investigação nesta área, como atestam os artigos Money creation in a modern economy : an introduction e Money creation in a modern economy, ambos emitido pelo Banco de Inglaterra. De facto, este mesmo banco afirma, no pre-release de um artigo do seu boletim trimestral datado de 14 de março de 2014, o seguinte:

“Where does money come from? In the modern economy, most money takes the form of bank deposits. But how those bank deposits are created is often misunderstood. The principal way in which they are created is through commercial banks making loans: whenever a bank makes a loan, it creates a deposit in the borrower’s bank account, thereby creating new money. As ‘Money creation in the modern economy’ explains, though, banks cannot create money in this way without limit: how much banks lend will rest on the profitable lending opportunities available to them which will, crucially, depend on the interest rate set by the Bank of England. In this way, monetary policy acts as the ultimate limit on money creation. This description of how money is created differs from the story found in some economics textbooks.”

No Reino Unido, a criação de dinheiro pelos bancos ascende a 97% do dinheiro em circulação na sociedade. O dinheiro produzido pelo Banco de Inglaterra – notas e moedas – é apenas 3% do dinheiro usado pela sociedade britânica. Em consequência, o valor dos juros por empréstimo contraídos (que no caso do Reino Unido ascende a 200 000 milhões de libras anuais) é dinheiro transferido diretamente do setor público (leia-se, particulares, empresas ou estados) para o setor financeiro, nomeadamente a alta finança.

Os mutuários veem-se obrigados a continuar a aumentar as suas receitas para pagar os interesses à (da) banca. A banca retira dividendos a partir do empréstimo de um bem que esta não detinha. Além do mais, se se mantiver este sistema (esquema) financeiro, a dívida jamais poderá ser saldada. Dado que 97% (no caso do RU) do dinheiro em circulação se deve à emissão de dívida, se todas as dívidas fossem saldadas deixaria de haver dinheiro na sociedade (as duas folhas de passivo e ativo dos bancos continuariam a zero, mas não havia dinheiro a circular). Como todo o processo é exclusivamente eletrónico, o montante saldado é subtraído às folhas de ativos e passivos do banco, fazendo desaparecer o dinheiro que havia sido criado aquando da emissão da dívida.

Ao contrário do que se pode pensar numa primeira análise, sempre que se salda uma dívida ao banco, este perde ativo e ganha passivo, isto é, perde dinheiro. Se as dívidas bancárias fossem saldadas, o sistema económico atual colapsaria. Como, a cada dia são saldadas várias dívidas bancárias, é necessário manter o apelo ao endividamento (de particulares, empresas e estados), para produzir moeda (eletrónica) que garanta um fornecimento de dinheiro à sociedade.

Mas haverá, então, solução para o problema? A resposta é sim. E a boa notícia é que pode ser implementada ao nível de uma zona económica ou de um país. Pode ser implementada no Reino Unido ou na Suíça, por exemplo, porque estes países tem um sistema monetário independente, mas também pode ser aplicada ao nível da zona euro. Esta última situação exige acordo entre todos os países que a constituem; aparentemente, um país que assinou o tratado monetário, só o poderá implementar as soluções de democratização monetária de forma independente se abandonar a moeda comum.


Próximo artigo sobre Democratização Monetária: “A economia da dívida: surgimento e implementação”. A publicar em breve neste blogue.

Também disponível em A Semente do Diabo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

29
Fev16

A Ilusão do Dinheiro

por Jorge Salema

O que é? Como deve existir e quem o cria? Qual a sua implicação moral e papel nas nossas sociedades? Não é fácil fazer  documentários sobre o dinheiro. A maior parte foca-se nas interessantes correntes mais ou menos contrárias de Keynes e Hayek. Expansionistas vs. liberais. Por causa da grave crise de 2008 que se transformou, na Europa, em crise da dívida soberana de alguns países, quase toda a gente sabe ou ouviu falar das polémicas em torno da resposta à situação económica que desemboca, ainda hoje, em visões cujos moldes foram formados em torno desses debates de escolas económicas.

 

Mas este programa é diferente, ele aborda as novas formas de pagamento, o conceito de dinheiro e propriedade ou a questão do Rendimento Básico Incondicional ( já abordada neste blog). As motivações por detrás do enorme bailout em 2008 são explicadas no 1º programa, a complexidade do desempenho da moeda e das  formas alternativas de propriedade e troca como a Bitcoin são abordados no 2º programa. Muito se ganha em escutar esta série de 3 episódios. O último dos quais ainda por ser emitido.

 

 

Programa radiofónico da CBC (em inglês) do qual se publicou podcast. Ideas: The Illusion of Money original  de 24 de fevereiro.   aqui  para 1º episódio. [**]

Autoria e outros dados (tags, etc)

26
Fev16

Há alternativa...

por Orlando Figueiredo

O Chipre e a Islândia são duas pequenas economias insulares profundamente dependentes do turismo e da pesca – a sardinha, no primeiro caso, e o bacalhau (a par de algumas baleias), no segundo. Ah, ambas as ilhas estiveram sujeitas a bolhas de setores financeiros diversos e a crises financeiras severas. Uma das ilhas reagiu tomando notas das dívidas e colocando na prisão os banqueiros corruptos. A outra (depois de uma heroica luta contra a Troika), desalojando pessoas das suas casas e pagando a bancos (estrangeiros) e a instituições financeiras. Hmmm…

cod

Tradução do artigo There is an alternative... de Edward Fullbrook (merijnknibbe), publicado em Real-World Economics Review Blog a 26/02/2016.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

 O “Brexit”, British exit (da União Europeia), está na ordem do dia por toda a Europa. O cenário é complexo. Se as recentes negociações entre David Cameron e o Conselho Europeu, levadas a cabo em Bruxelas, terminaram com o celebrativo Twitter de Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu:

a realidade é que o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia está marcado para junho. David Cameron tem quatro meses para convencer os britânicos que ficar é a melhor opção. A questão é fraturante, tanto do lado dos conservadores como do lado dos trabalhistas. As opiniões dividem-se e ambos os lados possuem apoiantes da permanência e da saída. David Cameron, primeiro-ministro e líder do partido conservador, decidiu fazer campanha pela permanência do Reino Unido na UE, porém, Michael Gove, ministro da justiça do governo presidido por Cameron, já declarou publicamente que vai fazer campanha pelo “Brexit”.

É claro que o Reino Unido pretende contrapartidas económicas. David Cameron utilizou o referendo como arma, para conseguir os acordos que pretendia junto do Conselho Europeu, e consegui-o. Até num dos pontos mais difíceis de acordar – a questão do pagamento dos abonos de família aos filhos de emigrantes que fiquem no país de origem –, o primeiro-ministro britânico conseguiu acordo vantajoso por parte do Conselho Europeu, apesar de não ter sido nos moldes exatos pretendidos. Cameron pretendia que a suspensão do pagamento dos abonos de família fosse feita de imediato para todos os casos, mas acabou por ceder. A suspensão aplica-se desde já aos novos emigrantes, mas os atuais usufruidores só verão a medida aplicada a partir de 2020. Esta é um resultado altamente vantajosa para o Reino Unido.

Há, porém, uma dimensão mais gravosa de toda a situação e localiza-se a norte: a Escócia. Tradicionalmente pró-europeus, os escoceses estão profundamente desagradados pela forma como o governo do Reino Unido está a organizar o referendo. Nicola Sturgeon, líder do Scotish National Party, que conseguiu um estrondoso suporte aquando do referendo de 2013 sobre a independência da Escócia, opõe-se à realização de um referendo a nível do Reino Unido. Sturgeon defende que a Escócia, Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte deveriam votar separadamente e que a saída da União Europeia estaria dependente de um “Brexit” unânime dos quatro países. Assim, uma eventual saída do Reino Unido da União Europeia poderá dar uma nova energia às pretensões independentistas da Escócia. No referendo de setembro de 2013, o “não” à independência ganhou por uma margem de 10,60 % - 55,30 % dos escoceses manifestou-se a favor da permanência da Escócia na UE, contra 44,70 % que preferem uma Escócia independente. Perante uma alteração tão radical das políticas externas do RU, é possível que o rácio se altere e a Escócia opte por uma saída do Reino Unido e opte por uma adesão do país à EU.

O Reino Unido vive agora a hesitação da União Europeia. Poderá, talvez, ler-se, nas pretensões conservadoras do abandono, a ilusão da manutenção de um Império que se desfez há mais de meio século. Império que se bastaria para permitir um Reino Unido sem União Europeia. Mas o império já se demoliu e é bom que os britânicos tomem consciência disso. O preço de não o fazerem é o de um Reino que já não é Império e que corre o risco de não mais ser Unido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

14
Fev16

Rendimento Básico Incondicional - Debate

por Orlando Figueiredo

Debate sobre a aplicação do Rendimento Básico Incondicional - A transição para uma alternativa social inovadora

Organização: Grupo de Estudos Políticos, PAN, Movimento - Rendimento Básico Incondicional Portugal, Grupo Teoria Política - CEHUM, IHC

15 e 16 de fevereiro

Assembleia da República - FCSH/UNL

Consulte o programa completo em: http://www.rendimentobasico.pt/index.php/eventos/

§

No contexto do colóquio sobre rendimento básico incondicional de dias 15 e 16 de Fevereiro o GAIA, em colaboração com os organizadores do colóquio, promove um jantar-debate na segunda-feira, dia 15, pelas 20h30, no GAIA em Alfama, sobre o tema "Rendimento básico incondicional: caminho para uma sociedade mais justa e ecologicamente sustentável ou simples instrumento do capitalismo?"

 

O texto que servirá de base à discussão, escrito por Orlando Figueiredo, foi apresentado no dia 7 de Maio de 2014, na Conferência “Rendimento Básico Incondicional? Dignidade e Liberdade”, organizada pelo Grupo de Estudos Políticos da Universidade da Beira Interior – Covilhã, Portugal e pode ser lido aqui: http://pensatempos.net/2014/05/31/rendimento-basico-incondicional-e-sustentabilidade-da-predacao-a-simbiose/

§RB

§

Mais informação sobre o RBI em: http://www.rendimentobasico.pt

Autoria e outros dados (tags, etc)

11
Fev16

Eutanásia (na sequência...)

por Orlando Figueiredo

Assunto recentemente abordado por Lara Silva no artigo Morrer ou não morrer, eis a questão e comentado por João Ferreira Dias em O Direito e a Liberdade de Morrer, o debate sobre a eutanásia está, por via da maioria parlamentar de esquerda, de novo na ordem do dia; e ainda bem.

Por força de circunstâncias laborais, vivo em Bruxelas, na Bélgica, país onde a eutanásia foi legalizada há mais de uma década. O parlamento belga aprovou a lei da eutanásia no dia 28 de maio de 2002 e em dezembro de 2013 o senado votou e aprovou a extensão da lei a crianças com doenças terminais. Aqui e ali ouvem-se notícias (por vezes sensacionalistas) de casos que assumem contornos pouco claros e tocam a fronteira da legalidade. Contudo, são poucos, mesmo muito poucos, os casos que chegam aos meios de comunicação. Desde que a lei foi aprovada, o número de casos de eutanásia na Bélgica ronda uma média de 1400 por ano. No último ano não me lembro de ouvir falar de mais de dois casos polémicos no Journal Télévisé, o telejornal de La Une, um dos principais canais de telivisão francófonos. (Infelizmente, o meu neerlandês ainda não é suficiente para tirar proveito dos meios de comunicação belgas neerlandófonos, mas, no que respeita a este tema, as coisas não devem divergir muito).

Mais por tradição e uso, que por convicção e crença, o catolicismo está profundamente enraizado nas estruturas organizacionais belgas. Como exemplo, a Universidade Católica de Lovaina, bem como muitos hospitais que tem o termo católico no seu nome, são, na verdade, instituições públicas financiadas pelo estado. Contudo, esta realidade não impediu a Bélgica de ser um país com um profundo respeito pelas liberdades individuais; há pouco mais de um ano, o primeiro-ministro, eleito pelo PS, era Elio Di Rupo, um Valão, filho de emigrantes italianos e assumidamente homossexual.

Recentemente houve alguma polémica porque os hospitais católicos reivindicaram a ilibação da eutanásia nas suas instalações. A resposta do governo, presidido pelo Primeiro-Ministro Charles Michel (do PP belga), foi rápida e acutilante: “a objeção de consciência é um ato individual, jamais poderá ser um ato institucional”. Apesar das muitas críticas que se ouvem a este governo (a crise económica começa a ter impacto no nível de vida dos belgas), a comunicação social e a população foram unânimes na aprovação da resposta dada a esta vindicação.

Gostaria de ver em Portugal, da esquerda à direita (mas sobretudo à direita), uma atitude idêntica. Em Portugal, a discussão sobre este e outros temas, como a adoção por casais do mesmo sexo, parece não conseguir sair do provincianismo mais próprio do lugar de Fátima em 1917, que de um país europeu do século XXI. Temos uma esquerda esclarecida e reflexiva; infelizmente temos uma direita saloia e campónia. Uma direita incapaz de sustentar cientificamente as suas posições, escorando-se, exclusivamente, nas suas crenças doutrinárias e dogmáticas fechando os olhos a qualquer argumento que não seja o veiculado pelo seu preceito.

O último grande exemplo de como a direita administra baseada em opiniões e de senso comum, sem qualquer enraizamento científico foi a atuação do ex-ministro da educação Nuno Crato. Nunca até à data havia testemunhado tamanho autismo em relação ao conhecimento científico veiculado por instituições nacionais e internacionais entre as quais se contam a UNESCO e a OCDE. Mas isso será tema para outra ocasião.

Por ora, ficaria contente se a discussão sobre a eutanásia não resvalasse para terrenos pantanosos, como resvalou a da IVG. Tanto na questão da eutanásia como na questão da IVG, não há (nem nunca houve) quem defenda a morte, para que outros se permitam arrogar “pela vida”; há somente os que defendem a liberdade de escolha, tendo por juiz a consciência individual, e os que pretendem impor, por via de um estado (que se exige) laico, a sua moral aos outros.

Infelizmente, tenho pouca esperança que tal possa vir a acontecer.

Autoria e outros dados (tags, etc)